Realizado entre os dias 19 e 21 de agosto, em Brasília, o XI Congresso Brasileiro para o Desenvolvimento do Edifício Hospitalar (CBDEH 2026) reuniu profissionais e especialistas em torno de um tema que traduz alguns dos principais desafios do setor: “Infraestruturas de saúde para o futuro: convergências entre tecnologia, sustentabilidade e longevidade”.
A escolha desses três eixos mostra que pensar o futuro dos ambientes de saúde exige mais do que acompanhar tendências isoladas. Tecnologia, sustentabilidade e longevidade estão profundamente relacionadas e já influenciam a forma como hospitais, clínicas e demais estabelecimentos assistenciais são planejados, construídos, utilizados e transformados.
Mais do que projetar novos edifícios, o setor precisa preparar suas estruturas para diferentes perfis de pacientes, mudanças nos modelos assistenciais, eventos climáticos, avanços tecnológicos e novas demandas operacionais.
Tecnologia integrada ao planejamento
A transformação digital da saúde está alterando processos clínicos, administrativos e logísticos. Inteligência artificial, automação, monitoramento remoto, interoperabilidade, internet das coisas e análise de dados ampliam as possibilidades de cuidado e gestão.
Entretanto, essas tecnologias precisam encontrar uma infraestrutura capaz de sustentá-las.
Conectividade, segurança da informação, disponibilidade energética, climatização, manutenção e integração entre sistemas passam a fazer parte das decisões relacionadas ao planejamento físico-funcional.
Quando a tecnologia é incorporada somente depois que o ambiente já foi definido, podem surgir adaptações improvisadas, limitações operacionais e custos que poderiam ter sido evitados.
O desafio não está apenas em escolher quais tecnologias utilizar, mas em compreender como elas modificarão os fluxos, as equipes, os processos e a experiência das pessoas.
Ambientes inteligentes não são aqueles que acumulam equipamentos. São aqueles que integram tecnologia, arquitetura, engenharia, assistência e gestão para melhorar efetivamente a segurança e a qualidade do cuidado.
Sustentabilidade além da eficiência energética
A sustentabilidade hospitalar não pode ser reduzida à instalação de painéis solares, ao uso de lâmpadas econômicas ou à redução do consumo de água.
Essas iniciativas são importantes, mas representam apenas uma parte de uma discussão muito mais abrangente.
Hospitais funcionam continuamente, dependem de sistemas complexos e precisam manter condições rigorosas de segurança. Por isso, sustentabilidade também envolve eficiência operacional, escolha adequada de materiais, gestão de resíduos, qualidade ambiental, durabilidade e capacidade de adaptação.
Um edifício que precisa passar por intervenções frequentes porque não acompanhou as transformações assistenciais pode consumir mais recursos financeiros e ambientais ao longo de sua vida útil.
Da mesma forma, fluxos mal planejados provocam deslocamentos desnecessários, aumentam desperdícios e afetam a produtividade das equipes.
Projetar ambientes sustentáveis significa considerar todo o ciclo de vida da edificação, desde as decisões iniciais até sua operação, manutenção, atualização e eventual transformação.
Também significa preparar as instituições para os efeitos das mudanças climáticas. Ondas de calor, chuvas intensas, interrupções no fornecimento de energia e outras situações extremas exigem estruturas resilientes, capazes de preservar a continuidade da assistência.
Longevidade e novas necessidades de cuidado
O envelhecimento populacional está entre as transformações demográficas mais importantes para o planejamento da saúde.
Uma população que vive mais demanda ambientes preparados para condições crônicas, limitações de mobilidade, alterações sensoriais e diferentes níveis de dependência.
Nesse contexto, acessibilidade não deve ser tratada apenas como o cumprimento de uma exigência normativa. Ela precisa fazer parte de uma visão mais ampla sobre autonomia, orientação, conforto e segurança.
Iluminação, acústica, sinalização, escolha de materiais, distâncias percorridas e organização dos espaços podem influenciar diretamente a experiência de pessoas idosas.
A longevidade também modifica os modelos assistenciais. O cuidado tende a envolver acompanhamento contínuo, integração entre especialidades e articulação entre hospitais, centros de diagnóstico, unidades ambulatoriais, reabilitação, atenção domiciliar e instituições de longa permanência.
Os espaços precisam acompanhar essa mudança. O desafio deixa de ser apenas atender episódios agudos e passa a incluir jornadas de cuidado mais longas, integradas e centradas nas necessidades de cada pessoa.
Três forças que precisam ser pensadas em conjunto
Tecnologia, sustentabilidade e longevidade não constituem agendas independentes.
A tecnologia pode ajudar a monitorar consumos, otimizar processos e ampliar a segurança. A sustentabilidade pode tornar as instituições mais resilientes e eficientes. A compreensão da longevidade pode orientar ambientes mais acessíveis, flexíveis e humanos.
Mas essa convergência somente produz resultados quando existe planejamento integrado.
Decisões sobre arquitetura, engenharia, equipamentos, tecnologia, operação e assistência precisam ser tomadas de forma articulada. Quando cada área atua isoladamente, o edifício pode deixar de responder adequadamente às necessidades do cuidado.
Essa integração também exige escuta. Pacientes, familiares e profissionais que vivenciam diariamente os ambientes de saúde possuem experiências capazes de revelar problemas e oportunidades que nem sempre aparecem nas análises técnicas.
Planejar para o futuro é unir conhecimento especializado à realidade de quem utiliza os espaços.
Conhecer o passado para projetar o futuro
As discussões propostas pelo CBDEH 2026 evidenciam que as infraestruturas de saúde estão diante de uma transformação profunda.
Ao mesmo tempo, projetar o futuro não significa ignorar o conhecimento acumulado ao longo da história.
Compreender a evolução dos hospitais, estudar soluções desenvolvidas em diferentes períodos e preservar documentos técnicos permite reconhecer avanços, evitar a repetição de erros e construir novas respostas a partir de experiências já consolidadas.
Há mais de 70 anos, o Instituto de Pesquisas Hospitalares Arquiteto Jarbas Karman (IPH) atua na pesquisa, preservação e difusão do conhecimento relacionado ao planejamento físico-funcional das instituições de saúde.
Seu acervo reúne livros, periódicos, projetos, documentos e referências que ajudam a compreender as transformações dos ambientes assistenciais e oferecem subsídios para profissionais, pesquisadores e instituições.
Diante dos desafios tecnológicos, ambientais e demográficos do presente, essa conexão entre memória, pesquisa e inovação torna-se ainda mais relevante.
Os ambientes de saúde do futuro serão construídos a partir das escolhas realizadas hoje. Para que sejam inteligentes, sustentáveis e preparados para a longevidade, precisarão permanecer centrados nas pessoas e no propósito essencial de toda infraestrutura de saúde: criar condições para cuidar.
Conheça o acervo, as publicações e as iniciativas do IPH em iph.org.br.