{"id":8052,"date":"2024-06-12T13:49:25","date_gmt":"2024-06-12T16:49:25","guid":{"rendered":"https:\/\/iph.org.br\/materia\/covid-19-a-pandemia-e-as-tendencias-para-o-planejamento-do-servico-de-saude-perspectivas-do-decalogo-para-hospitais-resilientes\/"},"modified":"2024-11-15T17:59:28","modified_gmt":"2024-11-15T20:59:28","slug":"covid-19-a-pandemia-e-as-tendencias-para-o-planejamento-do-servico-de-saude-perspectivas-do-decalogo-para-hospitais-resilientes","status":"publish","type":"materia","link":"https:\/\/iph.org.br\/en\/materia\/covid-19-a-pandemia-e-as-tendencias-para-o-planejamento-do-servico-de-saude-perspectivas-do-decalogo-para-hospitais-resilientes\/","title":{"rendered":"COVID-19 &#8211; A pandemia e as tend\u00eancias para o planejamento do servi\u00e7o de sa\u00fade: perspectivas do &#8220;Dec\u00e1logo para Hospitais Resilientes&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Resumo<\/strong><br \/>A pandemia causada pela COVID-19 gerou um estresse sobre os sistemas de sa\u00fade em escala global e, especificamente, sobre as organiza\u00e7\u00f5es e instala\u00e7\u00f5es hospitalares. O surto de infec\u00e7\u00f5es e o n\u00famero enorme de pacientes em estado cr\u00edtico testaram a flexibilidade dos projetos arquitet\u00f4nicos da \u00e1rea da sa\u00fade, for\u00e7ando organiza\u00e7\u00f5es a se adaptarem rapidamente e explorarem solu\u00e7\u00f5es emergenciais pontuais. Este trabalho prop\u00f5e perspectivas retiradas do&nbsp;Dec\u00e1logo para Hospitais Resilientes, entre elas uma s\u00e9rie de estrat\u00e9gias de projetos e considera\u00e7\u00f5es aplic\u00e1veis tanto para novos hospitais como para a reforma dos j\u00e1 existentes. As estrat\u00e9gias sugeridas s\u00e3o as seguintes: 1) Localiza\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica do terreno; 2) Configura\u00e7\u00e3o da tipologia; 3) Flexibilidade; 4) Projeto funcional; 5) Foco no usu\u00e1rio; 6) Territorializa\u00e7\u00e3o da rede de atendimento \u00e0 sa\u00fade; 7) Seguran\u00e7a do paciente; 8) Climatiza\u00e7\u00e3o e a qualidade do ar interno; 9) Materiais de acabamento e m\u00f3veis inovadores; 10) Inova\u00e7\u00e3o digital do sistema de sa\u00fade. A pandemia de COVID-19 desestabilizou o sistema de sa\u00fade e acelerou os processos de inova\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o. Ao incorporar, em novos projetos ou nos de reforma, estrat\u00e9gias operacionais e de projeto que se protejam do futuro, podemos obter estabelecimentos hospitalares mais resilientes.<br \/><br \/><strong>Palavras-chave:<\/strong>&nbsp;COVID-19; Hospital; flexibilidade; resili\u00eancia; inova\u00e7\u00e3o digital; seguran\u00e7a do paciente.&nbsp;<\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>O impacto da COVID-19 sobre os sistemas de sa\u00fade<\/strong><br \/>O v\u00edrus da COVID-19 est\u00e1 criando um estresse inesperado sobre as arquiteturas dos sistemas de sa\u00fade e de tratamento intensivo. A taxa de infec\u00e7\u00f5es e de pacientes severamente doentes internados alcan\u00e7ou n\u00edveis in\u00e9ditos.<br \/><br \/>Dentro do sistema de sa\u00fade, o papel dos hospitais \u00e9 crucial na oferta de tratamento m\u00e9dico essencial para toda a comunidade, especialmente durante uma emerg\u00eancia. Em geral, s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es complexas e vulner\u00e1veis, dependentes de apoio externo e redes de abastecimento cr\u00edticas, que operam em ritmo e capacidade alt\u00edssimos.<br \/><br \/>Mesmo um aumento modesto no volume de admiss\u00f5es durante um per\u00edodo relativamente curto de tempo, pode sobrecarregar um hospital para al\u00e9m da sua reserva funcional. A pandemia causada pela COVID-19 esgotou&nbsp;clusters&nbsp;cr\u00edticos de servi\u00e7os de apoio e interrompeu cadeias de fornecimento, al\u00e9m de ter levado \u00e0 redu\u00e7\u00e3o de equipes m\u00e9dicas e gerado desafios de comunica\u00e7\u00e3o (WHO, 2020). Os estabelecimentos de sa\u00fade enfrentaram muitas dificuldades para responder adequadamente \u00e0 demanda sem precedentes que o atendimento de emerg\u00eancia e das Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) recebeu para o tratamento de doen\u00e7as infeciosas. A necessidade de leitos para a COVID-19 nos departamentos de atendimento intensivo explodiu globalmente, for\u00e7ando os espa\u00e7os de cura a adotar estrat\u00e9gias para capacidades emergenciais de atendimento, como adaptar espa\u00e7os para atendimento m\u00e9dico, restri\u00e7\u00e3o de equipe e redu\u00e7\u00e3o de estoque para aumentar a capacidade geral.<br \/><br \/>Tal emerg\u00eancia evidenciou todos os desafios estruturais, tecnol\u00f3gicos e organizacionais correntes enfrentados por hospitais desgastados e obsoletos. Na realidade, essas institui\u00e7\u00f5es tiveram sua resili\u00eancia e efici\u00eancia prejudicadas para lidar com as r\u00e1pidas mudan\u00e7as epidemiol\u00f3gicas, econ\u00f4micas e sociais necess\u00e1rias para combater a dissemina\u00e7\u00e3o da COVID-19. Al\u00e9m disso, j\u00e1 no curto prazo, os sistemas de sa\u00fade enfrentar\u00e3o duas quest\u00f5es colaterais: o atraso cada vez maior dos procedimentos rotineiros de sa\u00fade (por ex.: tratamento de c\u00e2ncer, cirurgias etc.) e o esgotamento f\u00edsico e mental da for\u00e7a de trabalho da sa\u00fade causado por esta situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica (VV.AA., 2020; Barach et al., 2020).<br \/><br \/>Para superar a satura\u00e7\u00e3o mundial de espa\u00e7os nos hospitais existentes, foram exploradas duas estrat\u00e9gias principais:<\/p>\r\n<ul style=\"font-weight: 400;\">\r\n<li>Espelhando-se no exemplo de Wuhan, na China, que construiu um hospital emergencial em dez dias, o mundo todo assumiu o desafio de erguer diversas estruturas tempor\u00e1rias para dar conta da enorme demanda de leitos para pacientes com COVID-19. O fato de termos estabelecimentos projetados para lidar com os cuidados de muitos pacientes em 25.000 metros quadrados de blocos pr\u00e9-fabricados foi entendido como o s\u00edmbolo de como a inova\u00e7\u00e3o no campo da constru\u00e7\u00e3o pode impactar os processos do sistema de sa\u00fade. In\u00fameras solu\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias, tais como cont\u00eaineres, sistemas infl\u00e1veis, estruturas em tenda, m\u00f3dulos, pain\u00e9is divis\u00f3rios, embarca\u00e7\u00f5es, foram propostas por designers ao redor do mundo, como o coletivo CURA (<i><em style=\"font-weight: 400;\">Connected Units for Respiratory Ailments<\/em><\/i>), um projeto de c\u00f3digo aberto (<i><em style=\"font-weight: 400;\">open source<\/em><\/i>) desenvolvido pela Associa\u00e7\u00e3o Carlo Ratti (It\u00e1lia), ou os 68 leitos de atendimento e 10 de UTI montados no gramado East Meadow do Central Park em Nova York (USA);<\/li>\r\n<\/ul>\r\n<ul style=\"font-weight: 400;\">\r\n<li>Outra estrat\u00e9gia tratava de transformar tipologias de edifica\u00e7\u00f5es n\u00e3o sanit\u00e1rias, que n\u00e3o estavam sendo utilizadas durante a pandemia, tais como centros comerciais, aeroportos, escolas, entre outros, que foram reequipados. Diversos estudos desenvolvidos por designers resultaram em trabalhos conceituais que converteram, em 14 dias ou menos, escolas ou hot\u00e9is em espa\u00e7os de atendimento \u00e0 sa\u00fade tempor\u00e1rios. Al\u00e9m disso, uma for\u00e7a-tarefa organizada pelo Instituto Americano de Arquitetos (AIA, 2020) disponibilizou uma ferramenta de planejamento capaz de identificar rapidamente edif\u00edcios adequados para o tratamento de pacientes. Podemos encontrar exemplos na transforma\u00e7\u00e3o do Centro de Exibi\u00e7\u00e3o \"<i><em style=\"font-weight: 400;\">Fiera Milano<\/em><\/i>\" em Mil\u00e3o (It\u00e1lia) e do Centro ExCel em Londres (Reino Unido), onde tamb\u00e9m foram realizadas transforma\u00e7\u00f5es importantes no sistema de climatiza\u00e7\u00e3o. De qualquer maneira, esses exemplos apresentam severas limita\u00e7\u00f5es, tais como capacidade limitada para cirurgias ou para diagn\u00f3sticos de alta complexidade, escassez de servi\u00e7os especializados de apoio e a dist\u00e2ncia do hospital central.<\/li>\r\n<\/ul>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>O desafio dos estabelecimentos de sa\u00fade<\/strong><br \/>&nbsp;Ao mesmo tempo que, fora dos hospitais, estruturas tempor\u00e1rias foram erguidas, dentro deles as organiza\u00e7\u00f5es do servi\u00e7o de sa\u00fade tiveram de lidar com duas quest\u00f5es emergentes:<\/p>\r\n<ul style=\"font-weight: 400;\">\r\n<li>tratar pacientes com sintomas graves enquanto reduziam a dissemina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus entre usu\u00e1rios e a equipe m\u00e9dica. Para lidar com o primeiro aspecto, houve a r\u00e1pida convers\u00e3o de diferentes estabelecimentos, como hot\u00e9is, centros de com\u00e9rcio, aeroportos etc., em novos espa\u00e7os hospitalares, revelando uma s\u00e9rie de dificuldades operacionais e de seguran\u00e7a que podem ser resumidas na impossibilidade estrutural de separar um componente de tratamento cr\u00edtico (como as UTIs) do restante do hospital. Portanto, uma grande parte das \u00e1reas destinas \u00e0 COVID-19 foram projetadas de acordo com as solu\u00e7\u00f5es espec\u00edficas e extremamente variadas do hospital, departamento ou ala. A falta de uma estrat\u00e9gia comum abrangente n\u00e3o est\u00e1 relacionada \u00e0 complexidade da emerg\u00eancia, mas especialmente \u00e0 alta complexidade e \u00e0 alta variedade das infraestruturas hospitalares. De fato, em termos de dimens\u00f5es n\u00famero de usu\u00e1rios e volume de atividades, o hospital \u00e9 mais parecido com uma cidade dentro de uma cidade, caracterizado por estratifica\u00e7\u00f5es das redes de servi\u00e7os distribu\u00eddos tanto interna como externamente. O estado geral de obsolesc\u00eancia e rigidez do sistema de sa\u00fade contribuiu em grande parte para os desafios administrativos e organizacionais desta pandemia em particular em muitos pa\u00edses. Os hospitais foram for\u00e7ados a adotar diversas estrat\u00e9gias transversais, incluindo a cria\u00e7\u00e3o de:<\/li>\r\n<\/ul>\r\n<ul style=\"font-weight: 400;\">\r\n<li style=\"list-style-type: none;\">\r\n<ul>\r\n<li>espa\u00e7os dedicados para doa\u00e7\u00e3o e retirada de equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual (EPI) e \u00e1rea de desinfec\u00e7\u00e3o para os trabalhadores da \u00e1rea da sa\u00fade; novos espa\u00e7os com tecnologias pr\u00e9-fabricadas;<\/li>\r\n<li>\u00e1reas de seguran\u00e7a entre as alas, divis\u00e3o entre \u00e1reas contaminadas e n\u00e3o contaminadas, transforma\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os para tratamentos graves (por exemplo, j\u00e1 equipados com sistemas avan\u00e7ados, como suc\u00e7\u00e3o, oxig\u00eanio, press\u00e3o negativa etc.) come\u00e7ando com as salas de cirurgia;<\/li>\r\n<li>ambientes&nbsp;<i><em style=\"font-weight: 400;\">core and shell<\/em><\/i> vazios e \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o (tamb\u00e9m chamados de espa\u00e7os \"pulm\u00e3o\") para serem equipados para emerg\u00eancias; ou tamb\u00e9m \u00e1reas sem uso, academias de gin\u00e1stica, estacionamentos e centros de conven\u00e7\u00f5es;<\/li>\r\n<\/ul>\r\n<\/li>\r\n<\/ul>\r\n<ul style=\"font-weight: 400;\">\r\n<li>o outro desafio enfrentado pelos hospitais \u00e9 a conten\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. A falta de dados validados e protocolos com base em evid\u00eancias for\u00e7ou cada hospital a desenvolver solu\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, \u00e0s vezes com base em modelos de epidemias virais anteriores, como o SARS, em 2003, e o Ebola, em 2012, ou bacterianas, como a tuberculose. Lidar com esses epis\u00f3dios de alto cont\u00e1gio exigiu que fossem implementados protocolos r\u00edgidos de controle da infec\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas de distribui\u00e7\u00e3o, em lugares chave, como entradas, para gerir melhor os fluxos da equipe m\u00e9dica que poderia se contaminar e, com consequ\u00eancia, contaminar outros funcion\u00e1rios e usu\u00e1rios.<\/li>\r\n<\/ul>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/iph.org.br\/img\/revistas:162085223516208522356326706952.jpg\" \/><\/p>\r\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o 1.<\/strong> Obsolesc\u00eancia dos hospitais ao passar dos s\u00e9culos. Imagem retirada de Capolongo (2012).<\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Um Dec\u00e1logo para hospitais resilientes<\/strong><br \/>A partir dessas considera\u00e7\u00f5es gerais, o trabalho oferece perspectivas para o futuro da arquitetura na \u00e1rea da sa\u00fade em termos na forma de um Dec\u00e1logo de estrat\u00e9gias para novas perspectivas no planejamento do servi\u00e7o de sa\u00fade. Este trabalho foi promovido pelo Departamento de Arquitetura, Urbanismo e Engenharia Civil da Polit\u00e9cnico di Milano (It\u00e1lia) como um observat\u00f3rio das melhores pr\u00e1ticas para estabelecimentos de sa\u00fade resilientes.<\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\">Essa abordagem ir\u00e1 dar suporte em resposta \u00e0s necessidades de capacidade de tratamento cr\u00edtico aplic\u00e1vel tanto para novos hospitais como para a reforma dos j\u00e1 existentes com o intuito de possibilitar uma resposta mais clara e coordenada para futuras emerg\u00eancias de sa\u00fade (Capolongo et al., 2020).<\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\">As arquiteturas que atendam a sa\u00fade do futuro devem ser cada vez mais resilientes \u00e0s mudan\u00e7as e capazes de proteger a sa\u00fade de diferentes usu\u00e1rios, al\u00e9m de lidar com as necessidades sociais, ambientais, econ\u00f4micas e epidemiol\u00f3gicas em cont\u00ednua muta\u00e7\u00e3o do contexto em que estejam inseridas. Nos meses anteriores, uma matriz comparativa foi estruturada para unificar as estrat\u00e9gias derivadas da coleta de dados e dos casos de estudo. Duas \u00e1reas de melhoria t\u00eam sido investigadas:<\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\">1) estrat\u00e9gias 1, 2, 3, 4 e 5, que podem ser implementadas durante a fase de projeto;<\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\">2) estrat\u00e9gias 6, 7, 8, 9 e 10, que, ao contr\u00e1rio, podem ser alcan\u00e7adas na fase operacional.<\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\"><b><strong> <img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/iph.org.br\/img\/revistas:16208516291620851629926288348.png\" \/><\/strong><\/b><\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\"><strong>&nbsp;Ilustra\u00e7\u00e3o 2.<\/strong> Resultados do Dec\u00e1logo para Hospitais Resilientes. Tirada de Capolongo et al. (2020).<\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>1. Localiza\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica do terreno<\/strong><br \/>No contexto urbano, o hospital tem um papel estrat\u00e9gico devido a uma s\u00e9rie de fatores, como acomodar uma quantidade vasta e diversa de usu\u00e1rios e visitantes, a dimens\u00e3o relevante do edif\u00edcio e a cadeia econ\u00f4mica de suprimentos. Por essa raz\u00e3o, a escolha do local de constru\u00e7\u00e3o do hospital \u00e9 crucial durante os processos de planejamento e tomadas de decis\u00e3o que afetem a sustentabilidade social, ambiental e econ\u00f4mica das estruturas de sa\u00fade e da efici\u00eancia do servi\u00e7o (Dell-Ovo et al., 2018).<br \/><br \/>Recentemente, as tend\u00eancias hospitalares destacaram a import\u00e2ncia da localiza\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas urbanas, entretanto experi\u00eancias passadas e correntes, especialmente em rela\u00e7\u00e3o a uma epidemia infeciosa, t\u00eam desafiado tal tend\u00eancia. De fato, a capacidade de modificar \u00e1reas funcionais ou de lev\u00e1-las para o lado de fora tem sido geralmente limitada devido \u00e0 falta de flexibilidade para expandir o espa\u00e7o f\u00edsico devido \u00e0 localiza\u00e7\u00e3o do hospital em partes centrais e adensadas da cidade. Se aprendermos com o gerenciamento de pandemias anteriores, veremos que, ao localizar os hospitais p\u00f3s-COVID-19 nos limites das cidades, ser\u00e1 poss\u00edvel garantir tanto a limita\u00e7\u00e3o de fluxos fora de \u00e1reas urbanas, contendo assim poss\u00edveis riscos de cont\u00e1gio em centros urbanos de alta densidade, como a acessibilidade.<br \/><br \/>Ao mesmo tempo, uma correta estrat\u00e9gia de localiza\u00e7\u00e3o representa uma oportunidade para se espalhar em \u00e1reas pr\u00f3ximas ao estabelecimento de sa\u00fade. Por outro lado, \u00e9 prefer\u00edvel que \u00e1reas centrais recebam estabelecimentos que ofere\u00e7am: servi\u00e7os de sa\u00fade prim\u00e1rios, de preven\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade em escala distrital (Miedema et al., 2019).<br \/><br \/><strong>2. Configura\u00e7\u00e3o da tipologia para possibilitar a conten\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a<\/strong><br \/>Hoje em dia, as tend\u00eancias para a tipologia hospitalar s\u00e3o basicamente caracterizadas por configura\u00e7\u00f5es horizontais. Em uma situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia, tal configura\u00e7\u00e3o possibilita organizar as \u00e1reas sem restringir toda a distribui\u00e7\u00e3o dos sistemas (Capolongo et al., 2019). Para proporcionar uma gest\u00e3o efetiva de emerg\u00eancias, \u00e1reas de tratamento para pacientes contaminados e infectados isoladas por meio de uma clara separa\u00e7\u00e3o de fluxos, as contamina\u00e7\u00f5es cruzadas devem ser evitadas com o uso apropriado de conex\u00f5es verticais e horizontais dedicadas para as diversas \u00e1reas. Portanto, uma configura\u00e7\u00e3o tipol\u00f3gica h\u00edbrida, caracterizada por uma estrutura principal conectada para dar suporte a pavilh\u00f5es, pode representar uma solu\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica com acessos dedicados para ve\u00edculos de emerg\u00eancia e log\u00edstica.<br \/><br \/>No caso de uma emerg\u00eancia infecciosa, a independ\u00eancia dos pr\u00e9dios ou a presen\u00e7a de unidades internas aut\u00f4nomas, permite separar \u00e1reas funcionais distintas do restante do sistema sem interromper as atividades regulares. Providenciar espa\u00e7os externos ao redor do hospital \u00e9 tamb\u00e9m apropriado para receber estruturas tempor\u00e1rias adicionais, tais como tendas, estruturas de tens\u00e3o ou outras solu\u00e7\u00f5es modulares, que garantem a conex\u00e3o com o hospital e com os acessos de ambul\u00e2ncias e ve\u00edculos de log\u00edstica.<br \/><br \/><strong>3. Flexibilidade e resili\u00eancia<\/strong><br \/>A resili\u00eancia \u00e9 um dos principais desafios que os estabelecimentos de sa\u00fade precisam abordar hoje. Para assegurar uma gest\u00e3o eficaz de situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia, os conceitos de flexibilidade e percep\u00e7\u00e3o do futuro representam aspectos fundamentais para considerar no processo de planejamento hospitalar, desde o sistema geral da edifica\u00e7\u00e3o at\u00e9 as unidades funcionais e ambientais singulares.<br \/><br \/>Por exemplo, o Centro M\u00e9dico da Universidade Rush, em Chicago, representa um estudo de caso durante a pandemia de COVID-19. De fato, o hospital pode expandir tanto a capacidade de atendimento do departamento de emerg\u00eancia quanto o n\u00famero de quartos de isolamento quando necess\u00e1rio. Quando em funcionamento regular, esse hospital conta com aproximadamente 40 salas de press\u00e3o negativa capazes de prevenir a dissemina\u00e7\u00e3o pelo ar de doen\u00e7as potencialmente infeciosas. Cada unidade ambiental tem press\u00e3o negativa concernente ao corredor externo para permitir que o ar flua do corredor para o quarto e seja expelido do hospital pela introdu\u00e7\u00e3o de filtros HEPA.<br \/><br \/>Em geral, todas as interven\u00e7\u00f5es capazes de garantir uma r\u00e1pida reconfigura\u00e7\u00e3o s\u00e3o estrat\u00e9gicas em emerg\u00eancias, tais como:<\/p>\r\n<ul style=\"font-weight: 400;\">\r\n<li>a presen\u00e7a de espa\u00e7os dispon\u00edveis, \u00e1reas vazias e de apoio entre os diferentes lotes e departamentos para acomodar expans\u00f5es, reconfigura\u00e7\u00f5es ou \u00e1reas de isolamento;<\/li>\r\n<\/ul>\r\n<ul style=\"font-weight: 400;\">\r\n<li>\u00e1reas n\u00e3o sanit\u00e1rias que podem ser facilmente transformadas e equipadas com baixo investimento. Por exemplo, a \u00e1rea subterr\u00e2nea de estacionamento de diversos hospitais em Israel pode ser convertida em um hospital com muitos leitos em per\u00edodos de guerra, ou ainda, instala\u00e7\u00f5es esportivas flex\u00edveis podem ser reconfiguradas. Portanto, essas \u00e1reas devem contar com conex\u00f5es internas diretas com o resto do hospital, assim como com acessos externos para ambul\u00e2ncias;<\/li>\r\n<\/ul>\r\n<ul style=\"font-weight: 400;\">\r\n<li>\u00e1reas funcionais que podem facilmente ser convertidas, como uma ala comum do hospital que conte com a quantidade apropriada de instala\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas.<\/li>\r\n<\/ul>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\">&nbsp;<\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/iph.org.br\/img\/revistas:162085163016208516303891633980.jpg\" \/><\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\"><strong>&nbsp;Ilustra\u00e7\u00e3o 3.<\/strong> Projeto de quarto aberto desenvolvido pela Alta Scuola Politecnica, desmembrado em seus tr\u00eas subm\u00f3dulos. <br \/>Ilustra\u00e7\u00e3o de Andrea Brambilla.<\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>4. Projeto funcional e sistema de distribui\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>Um programa funcional \u00e9 fundamental nesse tipo de instala\u00e7\u00e3o de complexidade. Em caso de emerg\u00eancia, a disposi\u00e7\u00e3o deve considerar alguns pontos transversais:<\/p>\r\n<ul style=\"font-weight: 400;\">\r\n<li>a distribui\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos muitos aspectos a serem considerados no projeto funcional em rela\u00e7\u00e3o a emerg\u00eancias. O acesso para a equipe m\u00e9dica deve ser exclusivo, assim como o acesso para visitantes que n\u00e3o forem direcionados para o departamento de emerg\u00eancia. No caso de uma emerg\u00eancia infeciosa, deve ser poss\u00edvel separar ainda mais fluxos normalmente j\u00e1 apartados (p\u00fablicos e m\u00e9dicos) para dividir os fluxos de pacientes com suspeita ou confirma\u00e7\u00e3o de infec\u00e7\u00e3o dos outros usu\u00e1rios. Nesse sentido, \u00e9 obrigat\u00f3ria a presen\u00e7a de sinaliza\u00e7\u00e3o de f\u00e1cil reconhecimento para indicar de maneira eficaz as mudan\u00e7as tempor\u00e1rias nas rotas hospitalares;<\/li>\r\n<\/ul>\r\n<ul style=\"font-weight: 400;\">\r\n<li>a forte rela\u00e7\u00e3o entre o departamento de emerg\u00eancia e as alas infecciosas requer uma conex\u00e3o r\u00e1pida para a movimenta\u00e7\u00e3o de pacientes e da equipe hospitalar. Tais espa\u00e7os devem ser localizados no mesmo andar para permitir conex\u00f5es curtas e horizontais;<\/li>\r\n<\/ul>\r\n<ul style=\"font-weight: 400;\">\r\n<li>faz-se tamb\u00e9m necess\u00e1rio ter \u00e1reas de dep\u00f3sito, as quais, no caso de uma emerg\u00eancia infecciosa, poder\u00e1 armazenar a grande quantidade de materiais sanit\u00e1rios, EPI e lixo infectante. Al\u00e9m disso, \u00e9 premente encontrar solu\u00e7\u00f5es para a disposi\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria de cad\u00e1veres em espa\u00e7os com baixas temperaturas e com f\u00e1cil comunica\u00e7\u00e3o ao acesso externo para transporte;<\/li>\r\n<\/ul>\r\n<ul style=\"font-weight: 400;\">\r\n<li>para reduzir o risco de difus\u00e3o de infec\u00e7\u00e3o hospitalar, todas as alas regulares de interna\u00e7\u00e3o devem maximizar o n\u00famero de quartos individuais. Isso pode ser garantido com um conjunto de vigas de cabeceiras e equipamentos industriais que permitam transformar quartos individuais em duplos caso o fluxo de pacientes aumente.<\/li>\r\n<\/ul>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m disso, o projeto de um hospital resiliente deve considerar alguns aspectos organizacionais das \u00e1reas de tratamento mais interessadas na emerg\u00eancia infecciosa, tais como:<\/p>\r\n<ul style=\"font-weight: 400;\">\r\n<li>os resultados das UTIs como uma das mais afetadas, por isso \u00e1reas de filtro adicionais s\u00e3o necess\u00e1rias para que a equipe m\u00e9dica possa se trocar. \u00c9 sugerido ter \u00e1reas de trabalho separadas da \u00e1rea de tratamento central, para reduzir a exposi\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, e utilizar equipamentos m\u00f3veis de diagn\u00f3stico;<\/li>\r\n<\/ul>\r\n<ul style=\"font-weight: 400;\">\r\n<li>o departamento de emerg\u00eancia deve, ao mesmo tempo, acolher pacientes com suspeita da infec\u00e7\u00e3o e continuar a administrar todos os outros casos sem rela\u00e7\u00e3o com a infec\u00e7\u00e3o, separando suas entradas. Por isso, s\u00e3o recomendadas duas entradas para distinguir os doentes por meio de uma triagem dedicada, com espa\u00e7os separados de percurso, espera e tratamento. Devem ser providenciadas m\u00faltiplas \u00e1reas externas de descontamina\u00e7\u00e3o para ambul\u00e2ncias e \u00e1reas para o preparo de tendas de pr\u00e9-triagem;<\/li>\r\n<\/ul>\r\n<ul style=\"font-weight: 400;\">\r\n<li>&nbsp;a \u00e1rea de interna\u00e7\u00e3o, que normalmente abriga pacientes ambulatoriais, parentes ou visitantes, em situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia devem ter uma configura\u00e7\u00e3o flex\u00edvel para acomodar a equipe m\u00e9dica regular e extra, reduzindo o risco de contamina\u00e7\u00e3o dos familiares e garantindo a eles o descanso devido em situa\u00e7\u00f5es de alto estresse no trabalho. De maneira similar, o espa\u00e7o pode ser transformado para acomodar pacientes infectados de gravidade mais baixa ou aqueles com necessidade de reabilita\u00e7\u00e3o.<\/li>\r\n<\/ul>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>5. Foco no usu\u00e1rio<\/strong><br \/>Estudos sobre projetos com foco no usu\u00e1rio destacam que, durante todas as diferentes fases do processo de planejamento, a aten\u00e7\u00e3o deve ser voltada para as necessidades f\u00edsicas, psicol\u00f3gicas e sociais de todos os usu\u00e1rios para evitar situa\u00e7\u00f5es de insufici\u00eancia no futuro, como as geradas pela COVID-19 ou situa\u00e7\u00f5es similares de esgotamento funcional, como afirmado por Mosca et al. (2019) Isso \u00e9 especialmente verdadeiro para os ambientes hospitalares, onde aspectos como acessibilidade, sistema de sinaliza\u00e7\u00e3o e conforto impactam diretamente os mais diversos usu\u00e1rios durante emerg\u00eancias; particularmente, a equipe demonstra n\u00edveis de ansiedade, depress\u00e3o, ins\u00f4nia e estresse mais elevados do que o normal nas instala\u00e7\u00f5es hospitalares. Para isso, durante a pandemia, alguns designers conceberam quartos \"de recarga\" para os hospitais, caracterizados por elementos naturais, ajudam a equipe de sa\u00fade a se recuperar de um turno f\u00edsica e mentalmente desgastante. Esses espa\u00e7os foram projetados para ser customizados de acordo com as necessidades sensoriais dos usu\u00e1rios, como audi\u00e7\u00e3o, vis\u00e3o e olfato. O quarto traz o espa\u00e7o externo para dentro dos ambientes do edif\u00edcio - para criar espa\u00e7os com natureza em \u00e1reas hospitalares sem uso e pr\u00f3ximas dos departamentos de tratamento intensivo.<\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/iph.org.br\/img\/revistas:16208516291620851629306463020.png\" \/><\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\">&nbsp;<strong>Ilustra\u00e7\u00e3o 4.<\/strong> Ferramenta SUSThealth desenvolvida pela Politecnico di Milano.<\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\">Pesquisas t\u00eam demonstrado que observar a natureza pode melhorar o tempo de recupera\u00e7\u00e3o do paciente e reduzir os n\u00edveis de estresse da equipe de enfermagem (Ulrich et al., 2008; Elf et al., 2020).<\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m disso, estudos fundamentados em evid\u00eancia revelam que a presen\u00e7a de espa\u00e7os para o bem-estar f\u00edsico e psicol\u00f3gico \u00e9 estrat\u00e9gica para todos os usu\u00e1rios, al\u00e9m de influenciar de maneira positiva o desempenho de trabalho da equipe de sa\u00fade. Inclusive, em casos de emerg\u00eancia, tais espa\u00e7os poderiam garantir \u00e1reas para os usu\u00e1rios poderem se recuperar do estresse psicol\u00f3gico e das press\u00f5es di\u00e1rias. Esses espa\u00e7os podem tanto estar dentro da estrutura - perto de \u00e1reas funcionais - ou nas \u00e1reas verdes do hospital (como jardins e terra\u00e7os), preferencialmente com uma variedade de lugares, diversos assentos e pontos de isolamento para garantir a privacidade do usu\u00e1rio.<\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>6. Territorializa\u00e7\u00e3o da rede de atendimento \u00e0 sa\u00fade para a preven\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o de sa\u00fade<\/strong><br \/>A sinergia entre os servi\u00e7os territorializados e as organiza\u00e7\u00f5es de sa\u00fade possui papel crucial para a promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade. Em particular, a ado\u00e7\u00e3o do modelo de topologia&nbsp;hub-spoke&nbsp;poderia ser bastante eficiente em casos de grandes emerg\u00eancias, evitando o excesso de fluxo de usu\u00e1rios no hospital gra\u00e7as ao gerenciamento de atendimentos domiciliares ou \u00e0s unidades de atendimento de baixa a m\u00e9dia complexidade (Mauri, 2015).<br \/><br \/>A territorializa\u00e7\u00e3o dos centros comunit\u00e1rios de sa\u00fade, alinhada aos servi\u00e7os de atendimento prim\u00e1rio e \u00e0s atividades de triagem podem assegurar uma melhor gest\u00e3o dos servi\u00e7os de baixa a m\u00e9dia complexidade, assim como favorecer o uso de diagn\u00f3sticos inteligentes e o apoio aos pacientes ambulatoriais. Este modelo capilar incentiva o cuidado com a popula\u00e7\u00e3o, reduzindo o n\u00famero de transfer\u00eancia de pacientes e, consequentemente, a superlota\u00e7\u00e3o dos departamentos de emerg\u00eancia, minimizando as contamina\u00e7\u00f5es cruzadas oriundas do ambiente hospitalar entre usu\u00e1rios e equipe de sa\u00fade. Esses ambientes de sa\u00fade devem ser configurados como um eixo integrado entre os profissionais da sa\u00fade e os servi\u00e7os de sa\u00fade e sociais. Al\u00e9m disso, o uso e a implementa\u00e7\u00e3o de dispositivos de sa\u00fade para o hospital inteligente, assim como os programas de telemedicina, podem facilmente dar suporte e fortalecer a rede de sa\u00fade, al\u00e9m do monitoramento do estado de sa\u00fade dos usu\u00e1rios, mesmo no contexto de emerg\u00eancias no sistema de sa\u00fade.<br \/><br \/><strong>7. Seguran\u00e7a do paciente e melhoria da qualidade<\/strong><br \/>\u00c9 sabido que organiza\u00e7\u00f5es de sa\u00fade regularmente d\u00e3o origem a protocolos para o controle de risco e seguran\u00e7a do paciente no ambiente hospitalar. Particularmente, a lideran\u00e7a da sa\u00fade precisa reorganizar os comportamentos dos usu\u00e1rios e os protocolos do servi\u00e7o de sa\u00fade para que estejam alinhados com as melhores pr\u00e1ticas para o controle da COVID-19. O projeto de hospitais deve propiciar ambientes f\u00edsicos que possibilitem a quem oferte o servi\u00e7o agir de maneira profissional, confi\u00e1vel e respeitosa em rela\u00e7\u00e3o a toda a comunidade.<\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\">O projeto dos estabelecimentos afeta o modo de trabalho das pessoas e quais processos, sistemas e tecnologias ser\u00e3o necess\u00e1rios para suportar o funcionamento de um ambiente de trabalho e aprendizado. \u00c9 necess\u00e1rio levar em considera\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gias de projetos cujo prop\u00f3sito seja responder a poss\u00edveis emerg\u00eancias e necessidades m\u00e9dicas para garantir a seguran\u00e7a do paciente. Por exemplo, entre elas, muitos estabelecimentos de sa\u00fade inclu\u00edram indica\u00e7\u00f5es visuais para visitantes e usu\u00e1rios para destacar a proximidade de \u00e1reas funcionais de risco e \u00e1reas de interna\u00e7\u00e3o de pacientes infectados. Outros adotaram protocolos para transportar dispositivos e materiais de sa\u00fade, assim como o lixo hospitalar, por meio de elevadores dedicados para minimizar a contamina\u00e7\u00e3o cruzada. Ademais, para garantir a desinfec\u00e7\u00e3o regular, alguns hospitais adotaram espa\u00e7os chamados de \"c\u00e1psulas\" para pacientes com baixa acuidade. Estas foram projetadas para reduzir um poss\u00edvel risco de infec\u00e7\u00e3o ao separar o paciente do equipamento a ser limpo, portanto reduzindo a possibilidade de contamina\u00e7\u00e3o (Marsilio and Prenestini, 2020). Muitos hospitais adotaram estrat\u00e9gias, como fita adesiva no ch\u00e3o, sinaliza\u00e7\u00e3o e lousas para anota\u00e7\u00f5es nas portas com canetas especiais posicionadas intencionalmente. Foram providenciadas esta\u00e7\u00f5es para ter acesso aos EPIs em posi\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas, o que influenciou a maneira como e o local onde a equipe do hospital usa o equipamento. Equipamentos de f\u00e1cil e imediato acesso visual, estrat\u00e9gias de sinaliza\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento de orienta\u00e7\u00f5es podem ajudar a mitigar a transmiss\u00e3o das infec\u00e7\u00f5es ao definir claramente as \u00e1reas de risco, criar \u00e2ncoras mentais para atividades espec\u00edficas (Jamshidi and Pati, 2020) e, consequentemente, reduzir a fadiga mental e ajudar a alinhar o comportamento com os protocolos a serem seguidos.<\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>8. Climatiza\u00e7\u00e3o e qualidade do ar interno<\/strong><br \/>\u00c9 bem sabido que a qualidade do ar interno tem um papel central na preven\u00e7\u00e3o, especialmente em ambientes com usu\u00e1rios vulner\u00e1veis. A qualidade do ar depende n\u00e3o apenas do ar externo, mas tamb\u00e9m da presen\u00e7a interna de fontes emissoras de poluentes que possam afetar sua composi\u00e7\u00e3o. (Gola et al., 2019). \u00c9, portanto, necess\u00e1rio, assegurar trocas adequadas de ar em todos os ambientes hospitalares e, onde poss\u00edvel, ventila\u00e7\u00e3o mista.<br \/><br \/>Para assegurar uma gest\u00e3o eficiente em caso de emerg\u00eancias, como epidemias infecciosas, os sistemas de ventila\u00e7\u00e3o t\u00eam papel fundamental, mas seu funcionamento deve ser capaz de responder a diversas necessidades do servi\u00e7o de sa\u00fade em todas as condi\u00e7\u00f5es, mas especialmente em emerg\u00eancias, quando o ar pode representar um meio de difus\u00e3o da infec\u00e7\u00e3o (Correia et al., 2020; Li et al., 2007). O sistema de aquecimento, ventila\u00e7\u00e3o e ar-condicionado deve ser flex\u00edvel e ter uma opera\u00e7\u00e3o capaz de ser modificada em termos de ar usado, de recircula\u00e7\u00e3o para sistemas totais, e de press\u00e3o, de positiva para negativa. \u00c9 tamb\u00e9m estrat\u00e9gico usar materiais inovadores para a manuten\u00e7\u00e3o regular e constante, a limpeza e a desinfec\u00e7\u00e3o. Consequentemente, novas gera\u00e7\u00f5es de sistemas devem ser projetadas com solu\u00e7\u00f5es que garantam uma inspe\u00e7\u00e3o f\u00e1cil e a possibilidade de interven\u00e7\u00e3o (Joppolo e Romano, 2017).<br \/><br \/><strong>9. Materiais de acabamento e m\u00f3veis inovadores<\/strong><br \/>As infec\u00e7\u00f5es hospitalares t\u00eam papel primordial no contexto da gest\u00e3o da pandemia de COVID. Em sinergia com as atividades de monitoramento e administra\u00e7\u00e3o de riscos, \u00e9 necess\u00e1rio introduzir materiais de alta performance, duradouros e f\u00e1ceis de limpar para reduzir o volume de bact\u00e9rias (e v\u00edrus) nas superf\u00edcies de acabamento (van Doremalen et al., 2020), incluindo materiais ecol\u00f3gicos e tintas fotocatal\u00edticas, assim como caracterizadas pelo uso flex\u00edvel e de alto desempenho. \u00c9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m investigar e levar em considera\u00e7\u00e3o solu\u00e7\u00f5es usadas em contextos de emerg\u00eancia, como materiais t\u00eaxtis lav\u00e1veis, cuja aplica\u00e7\u00e3o pode ser expandida para muitas \u00e1reas do servi\u00e7o de sa\u00fade para o distanciamento social e que, caso necess\u00e1rio, possam ser facilmente limpos e trocados, e\/ou removidos para garantir a capacidade de adapta\u00e7\u00e3o e resili\u00eancia dos espa\u00e7os (Zanelli et al., 2020).<\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m da implementa\u00e7\u00e3o das melhores pr\u00e1ticas de ventila\u00e7\u00e3o, os produtos de limpeza devem ser definidos em rela\u00e7\u00e3o ao material dos m\u00f3veis e dos acabamentos considerando a caracter\u00edstica de cada superf\u00edcie (Kampf et al., 2020). Ademais, muitos detergentes possuem composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica capazes de matar a carga bacteriana e viral, por\u00e9m, ao mesmo tempo, podem apresentar compostos org\u00e2nicos vol\u00e1teis t\u00f3xicos aos seres humanos e, portanto, exigem aten\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 sustentabilidade ambiental.<\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>10. Inova\u00e7\u00e3o digital do sistema de sa\u00fade<\/strong><br \/>As novas tecnologias digitais podem dar apoio ao tratamento dos pacientes e processos de cura tanto no hospital como na rede de sa\u00fade territorial, mesmo em casos de emerg\u00eancia. De fato, o controle cont\u00ednuo do estado de sa\u00fade e dos sinais vitais por meio de sistemas de TI, como smartphone ou dispositivos port\u00e1teis, podem garantir uma melhor gest\u00e3o da hospitaliza\u00e7\u00e3o e, consequentemente, uma organiza\u00e7\u00e3o eficiente da configura\u00e7\u00e3o hospitalar. Al\u00e9m disso, o planejamento modular e a estimativa de ocupa\u00e7\u00e3o dos leitos de UTI e leitos regulares, tanto no mesmo hospital como na rede hospitalar territorial, podem apoiar o poss\u00edvel direcionamento das ambul\u00e2ncias para estabelecimentos de sa\u00fade mais apropriados. Da mesma forma, o monitoramento constante e o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico permitem o uso remoto de alguns equipamentos m\u00e9dicos eletr\u00f4nicos, diminuindo os contatos entre os pacientes (infectados) e a equipe hospitalar, garantindo um controle geral e um uso mais eficiente dos recursos.<\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\">Assim como o uso de sensores e dispositivos atrav\u00e9s da Internet das Coisas permite ao hospital garantir uma experi\u00eancia para cada usu\u00e1rio, monitorando o grau de conforto e satisfa\u00e7\u00e3o. Em um future pr\u00f3ximo, todos os procedimentos m\u00e9dicos que podem ser tratados remotamente ser\u00e3o levados a cabo por meio de sistemas digitais, e as organiza\u00e7\u00f5es de sa\u00fade tamb\u00e9m ser\u00e3o capazes de gerir melhor as informa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas dos pacientes e, portanto, os usu\u00e1rios sob risco estar\u00e3o mais protegidos com cursos m\u00e9dicos feitos sob medida. Hoje em dia, mais do que nunca, o sistema digital deve ser integrado \u00e0s inova\u00e7\u00f5es estruturais capazes de permitir acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade mundo afora e em diferentes condi\u00e7\u00f5es, garantindo seguran\u00e7a para os pacientes e os trabalhadores da \u00e1rea da sa\u00fade.<\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/iph.org.br\/img\/revistas:16208516291620851629555983020.jpg\" \/><br \/><strong>&nbsp;Ilustra\u00e7\u00e3o 5.<\/strong> Atendimento r\u00e1pido, projetado pela Politecnico di Milano.<\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Perspectivas futuras<\/strong><br \/>A pandemia da COVID-19 acelerou todos os processos de inova\u00e7\u00e3o j\u00e1 em ativa\u00e7\u00e3o. Da mesma maneira, o hospital, que diante desse processo gradual de desmaterializa\u00e7\u00e3o e realoca\u00e7\u00e3o de atividades diagn\u00f3sticas cl\u00ednicas \"mais suaves\", se reafirma como um centro da mais alta especialidade para o tratamento e a cura de pacientes graves, para a pesquisa cl\u00ednica e experimental de mais alto n\u00edvel, para diagn\u00f3sticos e opera\u00e7\u00f5es mais complexas. Por exemplo, o reconhecimento enf\u00e1tico feito por diversas institui\u00e7\u00f5es quanto \u00e0 resist\u00eancia antimicrobiana devido ao uso indevido ou excessivo de antibi\u00f3ticos pela medicina e o surgimento de estabelecimentos espec\u00edficos para o tratamento e a conten\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as infecciosas (Lanbeck et al., 2016). A pandemia ressaltou que pode ser muito dif\u00edcil lidar com uma era p\u00f3s-antibi\u00f3tica e que \u00e9 de crescente import\u00e2ncia a constru\u00e7\u00e3o de ambientes. De fato, devido \u00e0s altas taxas de dissemina\u00e7\u00e3o e contamina\u00e7\u00e3o da COVID, al\u00e9m da espera necess\u00e1ria at\u00e9 que surjam medicamentos seguros ou vacinas espec\u00edficas, a conten\u00e7\u00e3o da pandemia foi realizada majoritariamente por meio de ferramentas f\u00edsicas e sociais, como confinamentos e o h\u00e1bito de lavar as m\u00e3os. Os hospitais dever\u00e3o cada vez mais refletir sobre seu papel de promo\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, especialmente em rela\u00e7\u00e3o a seus usu\u00e1rios mais vulner\u00e1veis.<\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\">Considerando todas essas quest\u00f5es, \u00e9 essencial promover a\u00e7\u00f5es multidisciplinares e programas de monitoramento para a melhoria da qualidade por meio de ferramentas de avalia\u00e7\u00e3o baseadas em evid\u00eancias para desenvolver um novo projeto para o hospital do futuro pr\u00f3ximo. S\u00e3o encorajadas pesquisas multidisciplinares adicionais para validar as estrat\u00e9gias apresentadas nos estudos de caso e contextos emp\u00edricos.<\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\">O Dec\u00e1logo de estrat\u00e9gias se prop\u00f5e a indicar de maneira breve as estrat\u00e9gias chave a serem consideradas no projeto de novos hospitais resilientes e na ressignifica\u00e7\u00e3o da funcionalidade das estruturas existentes.<\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Agradecimentos<\/strong><br \/>Agradecemos ao Prof. Paul Barach, \u00e0 Arq. Erica Isa Mosca e ao Dr. Alessandro Morganti pelo apoio durante a pesquisa e pelas prof\u00edcuas considera\u00e7\u00f5es e sugest\u00f5es.<\/p>\r\n<strong>Refer\u00eancias<br \/><\/strong>AIA.&nbsp;<strong>AIA's COVID-19 Task Force Creates Design Guide to Retrofit Buildings for Alternative Care.<\/strong> ArchDaily, 2020. 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Participa do Laborat\u00f3rio de Projeto e Sa\u00fade na Politecnico di Milano.&nbsp;andrea1.brambilla@polimi.it<br \/><br \/><strong>Marco Gola:<\/strong> Arquiteto, PhD e pesquisador bolsista na Politecnico di Milano (It\u00e1lia). Participa do Laborat\u00f3rio de Projeto e Sa\u00fade na Politecnico di Milano e, atualmente, \u00e9 vice-secret\u00e1rio do CNETO, Centro Nacional para Projeto, Constru\u00e7\u00e3o e Tecnologia Hospitalar da It\u00e1lia.&nbsp;marco.gola@polimi.it<br \/><b><\/b>","protected":false},"featured_media":0,"template":"","class_list":["post-8052","materia","type-materia","status-publish","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/materia\/8052","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/materia"}],"about":[{"href":"https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/materia"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8052"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}