{"id":8068,"date":"2024-06-12T14:40:23","date_gmt":"2024-06-12T17:40:23","guid":{"rendered":"https:\/\/iph.org.br\/materia\/o-hospital-sul-america-e-o-projeto-moderno-na-arquitetura-de-saude\/"},"modified":"2024-06-27T12:27:52","modified_gmt":"2024-06-27T15:27:52","slug":"o-hospital-sul-america-e-o-projeto-moderno-na-arquitetura-de-saude","status":"publish","type":"materia","link":"https:\/\/iph.org.br\/en\/materia\/o-hospital-sul-america-e-o-projeto-moderno-na-arquitetura-de-saude\/","title":{"rendered":"O Hospital Sul Am\u00e9rica e o projeto moderno na arquitetura de sa\u00fade"},"content":{"rendered":"<p><strong>Resumo<\/strong><br \/>Neste artigo, apresentamos o Hospital da Lagoa, no Rio de Janeiro, objetivando ressaltar sua arquitetura como representante do patrim\u00f4nio moderno e hospitalar brasileiro. Projetado por Oscar Niemeyer e H\u00e9lio Uch\u00f4a, este hospital se configurou um modelo de atendimento de sua \u00e9poca, evidenciando as formas de adoecimento, tratamento e cura. Com uma arquitetura capaz de absorver novas tecnologias, significou uma abordagem pioneira de conforto ambiental e humaniza\u00e7\u00e3o, incorporando pain\u00e9is de azulejos de Athos Bulc\u00e3o e jardins de Burle Marx. Observando suas caracter\u00edsticas como lugar de mem\u00f3ria da sa\u00fade e da arquitetura moderna, usaremos diretrizes indicadas por Gonsales (2008), tomando tr\u00eas dimens\u00f5es interdependentes para an\u00e1lise: a representa\u00e7\u00e3o da modernidade, a conserva\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas originais e a autenticidade na sua preserva\u00e7\u00e3o, visando \u00e0 sua continuidade de uso e conserva\u00e7\u00e3o.<br \/><br \/><strong>Palavras-chave&nbsp;<\/strong><br \/>arquitetura moderna, arquitetura hospitalar, mem\u00f3ria da sa\u00fade.<br \/><br \/><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>Ao nos depararmos com as quest\u00f5es que envolvem a preserva\u00e7\u00e3o de obras arquitet\u00f4nicas do movimento moderno brasileiro, encontramos importante acervo a ser estudado e protegido: trata-se da preserva\u00e7\u00e3o de pr\u00e9dios hospitalares que enfatizam, ao lado da busca pelo estabelecimento de arquitetura inovadora e afirmativa das premissas do homem moderno, um modelo de atendimento hospitalar \u00e0 \u00e9poca de sua concep\u00e7\u00e3o, evidenciando as formas de adoecimento, tratamento e cura.<br \/><br \/>Nesse sentido, desenvolvemos neste trabalho uma reflex\u00e3o a respeito da preserva\u00e7\u00e3o do Hospital da Lagoa, antigo Hospital Sul Am\u00e9rica, projetado por Oscar Niemeyer e H\u00e9lio Uch\u00f4a, o qual teve sua obra conclu\u00edda em 1959, destacando seu papel como exemplar significativo da mem\u00f3ria da arquitetura de sa\u00fade brasileira.<br \/><br \/>O projeto original do hospital repete a parceria dos arquitetos, iniciada no Pavilh\u00e3o do Parque Ibirapuera, localizado em S\u00e3o Paulo, e utiliza os mesmos c\u00e2nones modernistas para a sua modelagem e implanta\u00e7\u00e3o. A obra se desenvolveu por sete anos, at\u00e9 1959, tendo enfrentado uma s\u00e9rie de dificuldades e obst\u00e1culos para sua finaliza\u00e7\u00e3o, como afirma Lauro Cavalcanti (1999, p.179). Um dos entraves \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o do hospital era a ocupa\u00e7\u00e3o do terreno escolhido para a sua constru\u00e7\u00e3o por uma favela de cerca de mil moradores, conhecida como Favela da H\u00edpica, que acabou sendo removida do local, assim como outras que havia \u00e0s margens da Lagoa.<br \/><br \/>Outra dificuldade que acabou causando atrasos na constru\u00e7\u00e3o do hospital foi a natureza do terreno, pantanoso e de dif\u00edcil estabiliza\u00e7\u00e3o, como costuma ser todo o entorno da Lagoa. As primeiras sondagens exigiram cuidados redobrados na confec\u00e7\u00e3o do projeto estrutural, que contava, inclusive, com a constru\u00e7\u00e3o de um pavimento em subsolo.<br \/><br \/>O pr\u00e9dio do Hospital&nbsp;Sul Am\u00e9rica da Funda\u00e7\u00e3o Larragoiti foi adquirido em 1962 pelo antigo Instituto de Aposentadoria e Pens\u00f5es dos Banc\u00e1rios (IAPB), por autoriza\u00e7\u00e3o do presidente Jo\u00e3o Goulart. Nesta ocasi\u00e3o, passou a chamar-se Hospital dos Banc\u00e1rios, integrando o suporte de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade, promovido pelo sindicato da classe.<br \/><br \/>Em novembro de 1966, \"todos os institutos que atendiam aos trabalhadores do setor privado foram unificados no Instituto Nacional de Previd\u00eancia Social - INPS\" (OLIVEIRA, 1985). O Hospital, posteriormente, foi integrado \u00e0 rede do extinto Instituto Nacional de Assist\u00eancia M\u00e9dica da Previd\u00eancia Social (INAMPS), que depois teve a sua rede de assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade transferida para a gest\u00e3o do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Foi tombado em 1992 pelo Instituto Estadual de Patrim\u00f4nio Art\u00edstico e Cultural - INEPAC. Posteriormente, atualizou seu nome para Hospital da Lagoa ou Hospital Federal da Lagoa, a partir de 2005, quando voltou \u00e0 gest\u00e3o federal ap\u00f3s pouco mais de cinco anos de administra\u00e7\u00e3o municipal, de 1999 a 2005. <br \/><br \/>Nesta reflex\u00e3o, pretendemos, ao observar o estado em que se encontra atualmente o Hospital da Lagoa e as a\u00e7\u00f5es para a conserva\u00e7\u00e3o de suas caracter\u00edsticas modernas, colaborar para um melhor entendimento das quest\u00f5es que envolvem a preserva\u00e7\u00e3o das edifica\u00e7\u00f5es modernas da sa\u00fade, frente \u00e0s necess\u00e1rias e constantes atualiza\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas de seus equipamentos prediais para atender \u00e0s diretrizes de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade da atualidade e do futuro. A partir da ado\u00e7\u00e3o constante de novos procedimentos de diagn\u00f3stico e de terapia, que observamos no desenvolvimento da pr\u00e1tica m\u00e9dica, acreditamos ser fundamental a an\u00e1lise de como as premissas construtivas do movimento moderno podem ter facilitado a atualiza\u00e7\u00e3o e as reformas necess\u00e1rias que impactaram este importante projeto ao longo de sua vida.<br \/><br \/><strong>A representa\u00e7\u00e3o da modernidade&nbsp;<\/strong><br \/>A primeira dimens\u00e3o para a an\u00e1lise da import\u00e2ncia da arquitetura do Hospital da Lagoa, como um exemplar do movimento moderno, pass\u00edvel de preserva\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o, \u00e9 o seu grau de representa\u00e7\u00e3o da modernidade arquitet\u00f4nica, ou seja, das caracter\u00edsticas que o tornaram um modelo de arquitetura moderna para a sa\u00fade.<br \/><br \/>Nesse sentido, n\u00e3o se pode negar, antes de tudo, a import\u00e2ncia das visitas ao Brasil do arquiteto franco-su\u00ed\u00e7o Le Corbusier, em 1929 e 1936, que contribu\u00edram para a difus\u00e3o de princ\u00edpios modernos da concep\u00e7\u00e3o arquitet\u00f4nica, usados para conceber e construir novos edif\u00edcios no Brasil. As ideias inovadoras apresentadas pelo pol\u00eamico arquiteto vieram ao encontro da preocupa\u00e7\u00e3o dos brasileiros, que passaram a empregar concep\u00e7\u00f5es formais est\u00e9ticas e modernas em seus projetos.<br \/><br \/>O Hospital da Lagoa seguiu essa tend\u00eancia de inova\u00e7\u00e3o na arquitetura brasileira e, al\u00e9m de ter incorporado ao projeto os princ\u00edpios&nbsp;<i>corbusianos<\/i>, incluiu novas abordagens no campo da medicina e administra\u00e7\u00e3o hospitalar, como o preconizado por Ernesto de Souza Campos em seu livro sobre a conforma\u00e7\u00e3o de hospitais. Como podemos observar em reportagem do Jornal \"O Globo\", de 29\/7\/57, o hospital estaria destinado a abrigar o que havia de mais atual em atendimento m\u00e9dico, al\u00e9m dos aspectos modernistas de representa\u00e7\u00e3o arquitet\u00f4nica.<\/p>\r\n<blockquote>\r\n<blockquote>\r\n<blockquote>\r\n<div>At\u00e9 meados do pr\u00f3ximo ano, ser\u00e1 inaugurado, nesta capital, o Hospital Sul Am\u00e9rica, que, com os seus 230 leitos, ser\u00e1 um dos mais modernos do mundo, dotado de instala\u00e7\u00f5es que representam as mais recentes conquistas, tanto pelo aspecto arquitet\u00f4nico (projeto de Oscar Niemeyer e H\u00e9lio Uch\u00f4a) como pelo planejamento dos servi\u00e7os m\u00e9dicos e administrativos e pela sele\u00e7\u00e3o do equipamento. (O GLOBO, 1957, p.38)<\/div>\r\n<\/blockquote>\r\n<\/blockquote>\r\n<\/blockquote>\r\n<div>As quest\u00f5es da modernidade que se buscava imprimir ao edif\u00edcio hospitalar na ocasi\u00e3o da concep\u00e7\u00e3o do Hospital da Lagoa apontam para o posicionamento de arquitetos e projetistas frente \u00e0s novas caracter\u00edsticas construtivas que exaltavam os novos tempos e os novos cidad\u00e3os, que poderiam usufruir da mais avan\u00e7ada tecnologia m\u00e9dica dispon\u00edvel, abrigada em uma constru\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria e transformadora nas suas premissas de implanta\u00e7\u00e3o, m\u00e9todos construtivos, orienta\u00e7\u00e3o e morfologia.<\/div>\r\n<div>&nbsp;<\/div>\r\n<div><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/iph.org.br\/en\/img\/revistas:164009429716400942976672341744.jpg\" \/><\/div>\r\n<div>\r\n<div class=\"img-legend\" style=\"text-align: center;\">&nbsp;<br \/><strong>Figura 1 .<\/strong> Maquete do Hospital da Lagoa. Fonte: L'Architecture d'aujourd'hui, 1955.<\/div>\r\n<\/div>\r\n<div>&nbsp;<\/div>\r\n<div>Assistia-se, no per\u00edodo, o estabelecimento da arquitetura hospitalar como um campo a ser estudado, \u00e0 medida que surgia um interesse dos profissionais de arquitetura em aprofundar seus conhecimentos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s diretrizes recomendadas por outros pa\u00edses, referentes aos projetos hospitalares. Os investimentos p\u00fablicos na \u00e1rea da sa\u00fade realizados durante o primeiro governo de Get\u00falio Vargas (1930-1945) foram muito relevantes, com a constru\u00e7\u00e3o de hospitais, postos e edifica\u00e7\u00f5es de sa\u00fade por todo o territ\u00f3rio nacional e com a cria\u00e7\u00e3o de escrit\u00f3rios t\u00e9cnicos em \u00f3rg\u00e3os estatais. Posteriormente, nos anos de 1950, com a cria\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, a necessidade de uma maior qualifica\u00e7\u00e3o profissional se fez sentir, conforme observado pela pesquisadora Ana Albano Amora:<\/div>\r\n<blockquote>\r\n<blockquote>\r\n<blockquote>\r\n<div>A trajet\u00f3ria de muitos desses profissionais indica uma dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um subcampo espec\u00edfico da atividade, que culminou na realiza\u00e7\u00e3o do curso de Planejamento Hospitalar, realizado pelo IAB de S\u00e3o Paulo, em 1953. (AMORA, 2011, s.p.).<\/div>\r\n<\/blockquote>\r\n<\/blockquote>\r\n<\/blockquote>\r\n<div>Neste sentido, podemos citar como determinante a institui\u00e7\u00e3o do primeiro curso de Arquitetura Hospitalar brasileiro, por iniciativa do arquiteto Jarbas Karman, que havia acabado de concluir seu curso de mestrado em Arquitetura Hospitalar na Universidade de Yale, nos EUA, em 1952, ano em que tamb\u00e9m participou de um curso sobre infec\u00e7\u00e3o hospitalar ministrado pelo Professor Carl Walter, em Kitchener, Ont\u00e1rio, Canad\u00e1 (CYTRYNOWICZ, 2014). Como pioneiro do assunto no Brasil, Karman montou e ministrou com alguns colegas, entre eles o ilustre arquiteto Rino Levi, o primeiro curso de Arquitetura Hospitalar do Brasil, no \u00e2mbito do IAB de S\u00e3o Paulo, em 1953.&nbsp;<\/div>\r\n<div>&nbsp;<\/div>\r\n<div><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/iph.org.br\/en\/img\/revistas:164009429916400942993031704960.jpg\" \/><\/div>\r\n<div>\r\n<div class=\"img-legend\" style=\"text-align: center;\">&nbsp;<br \/><strong>Figura 2 .<\/strong> Foto do 1\u00ba Curso de Planejamento de Hospitais, IAB e IPH, fevereiro de 1953. Fonte: Acervo do IPH.<\/div>\r\n<\/div>\r\n<div>&nbsp;<\/div>\r\n<div>Em 1954, Jarbas Karman compilou um livro, onde publicou todas as palestras do curso do ano anterior. A sua publica\u00e7\u00e3o foi realizada pela Comiss\u00e3o de Planejamento de Hospitais do IAB de S\u00e3o Paulo, composta pelos arquitetos Amador Cintra do Prado, Jarbas Karman, e Rino Levi. Karman fundou, ent\u00e3o, o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e de Pesquisas Hospitalares - IPH - e atuou como mantenedor da primeira faculdade de Administra\u00e7\u00e3o Hospitalar da Am\u00e9rica Latina, onde foi diretor e titular da cadeira de Arquitetura Hospitalar (CYTRYNOWICZ, 2014). A respeito dos objetivos do curso, Karman comentou que:<\/div>\r\n<blockquote>\r\n<blockquote>\r\n<blockquote>\r\n<div>Dentro de suas atividades, abrangeria todo o campo hospitalar do Pa\u00eds. Seria o nosso centro de conhecimento e informa\u00e7\u00f5es hospitalares. Os seus objetivos eram: 1- Realizar pesquisas hospitalares; 2- Dar estreita assist\u00eancia t\u00e9cnica aos hospitais, de modo a elevar o seu n\u00edvel e possibilit\u00e1-los a combater ou prevenir enfermidades mais eficaz e seguramente; 3- Planificar a coordena\u00e7\u00e3o de hospitais; 4- Desenvolver ensino e divulgar conhecimento no campo hospitalar. (IAB, 1954, p.418)<\/div>\r\n<\/blockquote>\r\n<\/blockquote>\r\n<\/blockquote>\r\n<div>Antes disso, especificamente em 1943, encontramos importante documento que delineou o campo de pesquisa e estudos da conforma\u00e7\u00e3o de hospitais n\u00e3o por engenheiros e arquitetos, mas por m\u00e9dicos e administradores hospitalares, atrav\u00e9s da realiza\u00e7\u00e3o do primeiro Curso de Organiza\u00e7\u00e3o e de Administra\u00e7\u00e3o Hospitalares. Este curso, ministrado pelo m\u00e9dico e engenheiro Ernesto de Souza Campos\u00b9, conferiu a 25 m\u00e9dicos o t\u00edtulo de Especialista, configurando a forma\u00e7\u00e3o dos primeiros especialistas da Am\u00e9rica do Sul neste campo do conhecimento, segundo o Dr. The\u00f3philo de Almeida, diretor da Divis\u00e3o de Organiza\u00e7\u00e3o Hospitalar do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, em 1943:<\/div>\r\n<blockquote>\r\n<blockquote>\r\n<blockquote>\r\n<div>Compreendendo desde a forma\u00e7\u00e3o do especialista, o planejamento das edifica\u00e7\u00f5es e instala\u00e7\u00f5es, a sele\u00e7\u00e3o do equipamento, as normas da organiza\u00e7\u00e3o e de funcionamento, o regime econ\u00f4mico-financeiro, a assist\u00eancia social, jur\u00eddica, cultural, religiosa e recreacional, o estudo da padroniza\u00e7\u00e3o em geral, a legisla\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, a coopera\u00e7\u00e3o profissional e associativa ou de classes; abrangendo, desta sorte, todo o dom\u00ednio da assist\u00eancia m\u00e9dico-social na comunidade, tanto para doentes, e de todas as classes, como para indigentes, e desajustados sociais, eis, em s\u00famula, todo um programa, que \u00e9 tamb\u00e9m a pr\u00f3pria finalidade da Divis\u00e3o de Organiza\u00e7\u00e3o Hospitalar, \u00f3rg\u00e3o federal especializado de coordena\u00e7\u00e3o, coopera\u00e7\u00e3o, orienta\u00e7\u00e3o e controle das atividades deste setor, no servi\u00e7o permanente da organiza\u00e7\u00e3o nacional. (CAMPOS, 1944, p.3)<\/div>\r\n<\/blockquote>\r\n<\/blockquote>\r\n<\/blockquote>\r\n<div>A preocupa\u00e7\u00e3o com os aspectos funcionais, aliada \u00e0 busca pelos aspectos formais da arquitetura moderna, conformou uma s\u00e9rie de projetos hospitalares a partir dos anos 1930 e 1940, quando a implanta\u00e7\u00e3o em blocos verticais come\u00e7ava a predominar,&nbsp; em meio a exemplos de morfologia pavilhonar, para expressar uma nova concep\u00e7\u00e3o de medicina. Esse per\u00edodo foi marcado pela racionalidade advinda dos c\u00e2nones do movimento moderno, que influenciou as discuss\u00f5es sobre a arquitetura mais adequada para exprimir o homem moderno que nascia no cen\u00e1rio da vida urbana brasileira.&nbsp;<\/div>\r\n<blockquote>\r\n<blockquote>\r\n<blockquote>\r\n<div>Varrer as doen\u00e7as por meio de a\u00e7\u00f5es preventivas e curativas e promover h\u00e1bitos considerados higi\u00eanicos, controlando os cuidados dos adultos com o corpo e prevenindo as futuras gera\u00e7\u00f5es contra enfermidades eram ideias expressas nos princ\u00edpios da disciplina da higiene, que pareciam impl\u00edcitas nessa pol\u00edtica de sa\u00fade p\u00fablica articulada \u00e0 ideia de moderniza\u00e7\u00e3o. (AMORA, 2012, p.53)<\/div>\r\n<\/blockquote>\r\n<\/blockquote>\r\n<\/blockquote>\r\n<div>O Hospital da Lagoa apresentou assim o emprego das premissas modernas para a sua arquitetura, como queriam seus idealizadores: o empres\u00e1rio Ant\u00f4nio Larragoiti J\u00fanior, os m\u00e9dicos Leon\u00eddio Ribeiro e F\u00e9lix Lamela, respons\u00e1veis pela programa\u00e7\u00e3o e concep\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os m\u00e9dicos, e os gestores da Funda\u00e7\u00e3o SulAm\u00e9rica, Companhia Nacional de Seguros de Vida.&nbsp;<br \/><br \/><\/div>\r\n<div>Ao lado do estabelecimento de uma assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade com grandes novidades para o per\u00edodo, pretendeu-se marcar a constru\u00e7\u00e3o do ent\u00e3o Hospital&nbsp;Sul Am\u00e9rica, concebido para atendimento dos funcion\u00e1rios da Funda\u00e7\u00e3o Larragoiti e do Banco Lar Brasileiro, n\u00e3o s\u00f3 com a t\u00e9cnica m\u00e9dica mais inovadora, mas tamb\u00e9m com uma arquitetura que traduzisse a modernidade e o avan\u00e7o da, ent\u00e3o, Capital Federal na arquitetura da sa\u00fade. Como podemos verificar nos jornais da \u00e9poca:&nbsp;<\/div>\r\n<blockquote>\r\n<blockquote>\r\n<blockquote>\r\n<div>Uma iniciativa da Institui\u00e7\u00e3o Larragoiti que colocar\u00e1 o paiz entre os de mais alto padr\u00e3o de medicina - pela primeira vez funcionar\u00e1 o Instituto de Diagn\u00f3stico para a revis\u00e3o peri\u00f3dica do organismo humano - a sala de recupera\u00e7\u00e3o junto ao centro cir\u00fargico \u00e9 uma inova\u00e7\u00e3o na moderna t\u00e9cnica hospitalar. (O GLOBO, 1957, p. 38)<\/div>\r\n<\/blockquote>\r\n<\/blockquote>\r\n<\/blockquote>\r\n<div>As quest\u00f5es arquitet\u00f4nicas foram enfrentadas estabelecendo-se um projeto pioneiro para seu tempo, evidenciando o emprego das principais caracter\u00edsticas do movimento moderno, as quais haviam sido demonstradas no pr\u00e9dio do Minist\u00e9rio de Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade, antigo Pal\u00e1cio Capanema, ou edif\u00edcio Gustavo Capanema, considerado um dos principais exemplos da nova arquitetura brasileira e que figurou com destaque na exposi\u00e7\u00e3o&nbsp;<i>Brazil Builds<\/i>, realizada no MoMa de Nova York, em 1943.<br \/><br \/><\/div>\r\n<div>No projeto, sobressaem detalhes como a planta livre, a estrutura independente - que se conforma, no t\u00e9rreo, em pilares em \"V\", caracter\u00edsticos do arquiteto neste per\u00edodo\u00b2 - a previs\u00e3o de um jardim no telhado (que nunca foi implantado) e o uso de elementos de est\u00e9tica dos anos modernos, como os pain\u00e9is da fachada oeste trabalhados em cobog\u00f3s e em <i>brises-soleil.<\/i><\/div>\r\n<div><i>&nbsp;<\/i><\/div>\r\n<div><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/iph.org.br\/en\/img\/revistas:164009429816400942987765994163.jpg\" \/><\/div>\r\n<div>\r\n<div class=\"img-legend\" style=\"text-align: center;\"><strong><br \/>Figura 3 .<\/strong> Maquete do Hospital da Lagoa. Fonte: L'Architecture d'Aujourd'hui, 1955.<\/div>\r\n<\/div>\r\n<div>&nbsp;<\/div>\r\n<div>Como menciona Gonsales (2008), podemos considerar que a concep\u00e7\u00e3o do Hospital&nbsp;Sul Am\u00e9rica&nbsp;incorpora em seu \u00e2mago a express\u00e3o da modernidade quando observamos as novidades da medicina contempladas no seu programa, a cuidadosa escolha do local de sua implanta\u00e7\u00e3o, usufruindo da vista da Lagoa Rodrigo de Freitas, e a op\u00e7\u00e3o pelo emprego dos conceitos da nova arquitetura, como significantes de uma afirma\u00e7\u00e3o de pioneirismo, marcando a obra como uma esp\u00e9cie de \"monumento moderno\" a ser apreciado e usufru\u00eddo como marco nacional de arquitetura e de avan\u00e7o da medicina.<br \/><br \/><\/div>\r\n<div>Esta dimens\u00e3o est\u00e1 indicada pelo grau de presen\u00e7a em um bem potencialmente patrimonial daquelas caracter\u00edsticas fundamentais da modernidade arquitet\u00f4nica e urbana que representam a ess\u00eancia do objeto em um sentido normativo e universal. (GONSALES, 2008, p.3).<\/div>\r\n<div>&nbsp;<\/div>\r\n<div>A observa\u00e7\u00e3o da concep\u00e7\u00e3o arquitet\u00f4nica utilizada no projeto, das particularidades do programa e da tecnologia construtiva empregada aponta o \"grau de modernidade\" e a import\u00e2ncia hist\u00f3rica da obra (GONSALES, 2008). Encontramos em Riegl considera\u00e7\u00f5es sobre uma obra arquitet\u00f4nica contar com \"valor de rememora\u00e7\u00e3o intencional\" ou \"valor de novidade\", com os quais podemos estabelecer reflex\u00f5es sobre a conserva\u00e7\u00e3o do Hospital (RIEGL, 2014).<br \/><br \/><\/div>\r\n<div>Ainda buscando sua marca como pr\u00e9dio que abrigava as mais recentes conquistas da sociedade de ent\u00e3o, foi previsto, em sua arquitetura, o emprego de obras de arte traduzidas nos pain\u00e9is de azulejos assinados por Athos Bulc\u00e3o, al\u00e9m de jardins desenhados por Roberto Burle Marx, personagem marcante na tradu\u00e7\u00e3o do moderno em projetos paisag\u00edsticos do pa\u00eds.&nbsp;<\/div>\r\n<div>&nbsp;<\/div>\r\n<div><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/iph.org.br\/en\/img\/revistas:164009430016400943003663391444.jpg\" \/>\r\n<div class=\"img-legend\" style=\"text-align: center;\"><strong><br \/>Figura 4 . <\/strong>Painel dos azulejos do Hospital Sul Am\u00e9rica e um dos m\u00f3dulos que o comp\u00f5em. Fonte: ASTORGA, 2010.<br \/><br \/><\/div>\r\n<\/div>\r\n<p><strong>A conserva\u00e7\u00e3o do projeto original<\/strong><br \/>A partir da observa\u00e7\u00e3o do projeto original do hospital, podemos observar como a institui\u00e7\u00e3o p\u00f4de conservar a edifica\u00e7\u00e3o concebida pelos arquitetos Niemeyer e Uch\u00f4a, sob algumas premissas estruturantes \u00e0 \u00e9poca mas que, hoje, n\u00e3o atendem mais \u00e0s exig\u00eancias da arquitetura de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade, visto a s\u00e9rie de normas que impactaram e modificaram significativamente os projetos hospitalares a partir da d\u00e9cada de 1990, segundo C\u00e9lia Gonsales:<\/p>\r\n<blockquote>\r\n<blockquote>\r\n<blockquote>\r\n<div>A import\u00e2ncia hist\u00f3rica dada a um edif\u00edcio faz parte de um processo de retroalimenta\u00e7\u00e3o. Os resultados da investiga\u00e7\u00e3o art\u00edstica, hist\u00f3rica e cient\u00edfica criam um corpus que indica e sustenta um objeto como \"monumento\". Os resultados ser\u00e3o mais consistentes \u00e0 medida que identificam aquela arquitetura ou espa\u00e7o urbano com uma estrutura ou esquema moderno mais evidente, aqueles objetos que apresentam um real emprego dos apriorismos modernos. (GONSALES, 2008, p.11).<\/div>\r\n<\/blockquote>\r\n<\/blockquote>\r\n<\/blockquote>\r\n<div>Neste sentido, nos deparamos aqui com as dificuldades inerentes \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o dos projetos originais de edif\u00edcios de sa\u00fade. Se, por um lado, temos que considerar a atividade-fim destas institui\u00e7\u00f5es, por outro, podemos imaginar uma s\u00e9rie de equ\u00edvocos e de desconhecimento das fun\u00e7\u00f5es que fizeram parte do programa de necessidades que inicialmente moldaram a distribui\u00e7\u00e3o e a hierarquiza\u00e7\u00e3o dos ambientes, assim como a infraestrutura e os espa\u00e7os t\u00e9cnicos que apoiaram a concep\u00e7\u00e3o original do hospital. Fernando Diniz Moreira apresenta uma preocupa\u00e7\u00e3o referente a essa quest\u00e3o:<\/div>\r\n<blockquote>\r\n<blockquote>\r\n<blockquote>\r\n<div>Nossas sociedades ainda n\u00e3o consolidaram a ideia de que a arquitetura moderna \u00e9 um produto cultural e que deve ser protegida para as futuras gera\u00e7\u00f5es. O reconhecimento de um edif\u00edcio como um bem cultural de uma comunidade leva certo tempo. Muitos edif\u00edcios modernos est\u00e3o sob risco de descaracteriza\u00e7\u00e3o ou demoli\u00e7\u00e3o, mas muitos deles ainda n\u00e3o tiveram seus valores reconhecidos pela sociedade. (MOREIRA, 2010, p.155)<\/div>\r\n<div>&nbsp;<\/div>\r\n<\/blockquote>\r\n<\/blockquote>\r\n<\/blockquote>\r\n<div><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/iph.org.br\/en\/img\/revistas:164009429816400942982357233860.jpg\" \/><\/div>\r\n<div>\r\n<div class=\"img-legend\" style=\"text-align: center;\"><strong><br \/>Figura 5 .<\/strong> Fachada leste do Hospital da Lagoa. Fonte: Rio de Janeiro - NEMS, 2012.<\/div>\r\n<\/div>\r\n<div>&nbsp;<\/div>\r\n<div>Consideramos que, a despeito de interven\u00e7\u00f5es e reformas que foram se adicionando ao projeto original, temos a sua integridade garantida a partir da continuidade do uso de seus ambientes, que, embora atualizados na fun\u00e7\u00e3o e nas premissas contempor\u00e2neas de assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade, puderam guardar as caracter\u00edsticas de sua localiza\u00e7\u00e3o e suas dimens\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao projeto inicial. Como aponta Ana Albano Amora:<\/div>\r\n<blockquote>\r\n<blockquote>\r\n<blockquote>\r\n<div>A preserva\u00e7\u00e3o de parte desse patrim\u00f4nio, especialmente dos pr\u00e9dios p\u00fablicos, est\u00e1 sendo garantida pelo uso. Entretanto, o projeto Invent\u00e1rio do Patrim\u00f4nio Cultural da Sa\u00fade pode ser um passo no sentido da utiliza\u00e7\u00e3o do instrumento do invent\u00e1rio como mecanismo de salvaguarda de acordo com a Constitui\u00e7\u00e3o Federal. Isso se constitui em avan\u00e7o para o conjunto de a\u00e7\u00f5es de preserva\u00e7\u00e3o nas v\u00e1rias inst\u00e2ncias governamentais. (AGOSTINHO e AMORA, 2009, s.p.)&nbsp;<\/div>\r\n<\/blockquote>\r\n<\/blockquote>\r\n<\/blockquote>\r\n<div>Especificamente, no caso do Hospital da Lagoa, que se tornou um exemplar da mem\u00f3ria do exerc\u00edcio da medicina, o estudo de sua conserva\u00e7\u00e3o deve ser considerado dentro de um campo espec\u00edfico de conhecimento, exercido na busca da ordena\u00e7\u00e3o e da implanta\u00e7\u00e3o adequadas do objeto em tela, como em diversos projetos de conserva\u00e7\u00e3o de exemplares do movimento moderno.&nbsp;<br \/><br \/><\/div>\r\n<div>Como nos sinaliza Riegl (2014), em toda&nbsp; tentativa de interven\u00e7\u00e3o para a conserva\u00e7\u00e3o de um objeto arquitet\u00f4nico, devemos nos imbuir de acurado ju\u00edzo cr\u00edtico e nos capacitar a fazer escolhas espec\u00edficas para lograrmos atingir a pretendida preserva\u00e7\u00e3o. Estas escolhas s\u00e3o evidenciadas no artigo de Cunha e Kodaira (2009) a respeito dos desafios apresentados para a restaura\u00e7\u00e3o da arquitetura moderna, tratada, em geral, como quest\u00e3o da arquitetura e nem sempre como a\u00e7\u00e3o do campo da restaura\u00e7\u00e3o. As autoras pontuam que:<\/div>\r\n<blockquote>\r\n<blockquote>\r\n<blockquote>\r\n<div>Mesmo sendo um fato relativamente novo no campo da preserva\u00e7\u00e3o, j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel individuar algumas tend\u00eancias frente \u00e0s interven\u00e7\u00f5es em arquiteturas relacionadas ao movimento moderno: uma primeira tend\u00eancia \u00e9 o restauro (pseudo) filol\u00f3gico, visando recuperar as caracter\u00edsticas originais da obra; uma segunda postura, semelhante por princ\u00edpio \u00e0 primeira, seria a reconstru\u00e7\u00e3o ao id\u00eantico de obras destru\u00eddas; uma terceira possibilidade \u00e9 a atualiza\u00e7\u00e3o ou mesmo corre\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gico-construtiva do monumento. (CUNHA e KODAIRA, 2009, p. 8)<\/div>\r\n<\/blockquote>\r\n<\/blockquote>\r\n<\/blockquote>\r\n<div>No entanto, ainda em Riegl (op. cit), podemos imaginar a dificuldade nas escolhas do que preservar e de que modo o fazer, nos imbuindo de um esp\u00edrito cr\u00edtico que direciona as tomadas de decis\u00e3o, quando se d\u00e1 a incorpora\u00e7\u00e3o de tecnologia. A atualiza\u00e7\u00e3o dos edif\u00edcios hospitalares n\u00e3o pode esperar a discuss\u00e3o sobre o modo como podemos conservar as premissas de modernidade frente \u00e0 chegada de novos elementos t\u00e9cnicos e cient\u00edficos.<br \/><br \/><\/div>\r\n<div>Em 2010, foi feito um levantamento das fachadas do hospital para a sua recupera\u00e7\u00e3o e elaborado um documento, o Projeto B\u00e1sico de Restaura\u00e7\u00e3o do Hospital da Lagoa. Com a atualiza\u00e7\u00e3o dos ambientes, para abrigar novos equipamentos de diagn\u00f3stico e tratamento ou para atender \u00e0 Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria, o fato \u00e9 que o hospital p\u00f4de desenvolver estas a\u00e7\u00f5es, acompanhadas por minucioso trabalho de conserva\u00e7\u00e3o (GARRO, 2010).<\/div>\r\n<div>&nbsp;<\/div>\r\n<div><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/iph.org.br\/en\/img\/revistas:164009429916400942998085387585.jpg\" \/><\/div>\r\n<div>\r\n<div class=\"img-legend\" style=\"text-align: center;\"><strong><br \/>Figura 6 .<\/strong> Bloco do Ambulat\u00f3rio, Hospital da Lagoa. Fonte: NEMS, Rio de Janeiro, 2016.<\/div>\r\n<\/div>\r\n<div>&nbsp;<\/div>\r\n<div>O Hospital da Lagoa passou, tamb\u00e9m, por uma tentativa de restaura\u00e7\u00e3o e revitaliza\u00e7\u00e3o dos seus jardins, com projeto original de autoria do paisagista Roberto Burle Marx, utilizando a documenta\u00e7\u00e3o existente. Foram levantados documentos do escrit\u00f3rio deposit\u00e1rio dos projetos do paisagista e do arquiteto Haruyoshi Ono, seu colaborador. O trabalho chegou a ser iniciado, mas as mudan\u00e7as de dire\u00e7\u00e3o do hospital, somadas \u00e0s dificuldades&nbsp; que sua gest\u00e3o vem passando, adiaram esta recomposi\u00e7\u00e3o.<\/div>\r\n<div>&nbsp;<\/div>\r\n<div><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/iph.org.br\/en\/img\/revistas:164009430016400943008622270764.jpg\" \/><\/div>\r\n<div style=\"text-align: center;\"><strong><br \/>&nbsp;Figura 7 .<\/strong> Jardim do Hospital da Lagoa, de Burle Marx, 1955. Fonte: Adams, MoMA, 1991.&nbsp;<\/div>\r\n<p><br \/><strong>A autenticidade na preserva\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>Com as assertivas mencionadas acima e observando os conceitos recentemente discutidos sobre a conserva\u00e7\u00e3o dos monumentos do movimento moderno, especialmente no caso de institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade, como \u00e9 o Hospital da Lagoa, nos deparamos com o questionamento sobre a autenticidade nas escolhas das interven\u00e7\u00f5es pelas quais tem passado o edif\u00edcio. Para ilustrarmos esta discuss\u00e3o, recorremos mais uma vez a C\u00e9lia Gonsales, que nos fala:<\/p>\r\n<blockquote>\r\n<blockquote>\r\n<blockquote>\r\n<div>A autenticidade em rela\u00e7\u00e3o aos monumentos arquitet\u00f4nicos cont\u00e9m sempre uma ideia de passagem do tempo, do reconhecimento e valoriza\u00e7\u00e3o do objeto atrav\u00e9s das marcas obtidas em seu devir hist\u00f3rico. A arquitetura moderna em geral n\u00e3o \u00e9 eficiente sob esse aspecto e isso explica de alguma maneira sua particularidade na abordagem desse tema. (GONSALES, 2008, p.13)<\/div>\r\n<\/blockquote>\r\n<\/blockquote>\r\n<\/blockquote>\r\n<div>Assim, h\u00e1 dificuldades no distanciamento temporal, presente nos monumentos antigos, em que n\u00e3o \u00e9 preciso assumir uma postura de reflex\u00e3o e busca de valores caros \u00e0s culturas ou \u00e0 hist\u00f3ria da arte e da arquitetura. No caso dos edif\u00edcios modernos, n\u00e3o temos ainda, na sua maioria, a presen\u00e7a da p\u00e1tina do tempo a imprimir um aspecto vetusto e que induza a buscar a sua representatividade e valor na passagem dos anos e na constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da sua presen\u00e7a na paisagem da cidade. E, mais grave ainda, a p\u00e1tina do tempo em edif\u00edcios modernos denota, na maioria das vezes, apenas uma falta de conserva\u00e7\u00e3o adequada da edifica\u00e7\u00e3o.<\/div>\r\n<blockquote>\r\n<blockquote>\r\n<blockquote>\r\n<div>Como temos discutido, \u00e9 na verifica\u00e7\u00e3o do equacionamento das quest\u00f5es fundamentais da modernidade em uma obra de arquitetura que pode estar o segredo de sua aceita\u00e7\u00e3o pela comunidade e assim sua verdadeira autenticidade. (GONSALES, 2008, p.13)<\/div>\r\n<\/blockquote>\r\n<\/blockquote>\r\n<\/blockquote>\r\n<div>Podemos, ent\u00e3o, aferir que a autenticidade, no caso de estruturas arquitet\u00f4nicas modernas, deve se ligar aos fatores culturais que a obra representa. As reflex\u00f5es sobre as quest\u00f5es da conserva\u00e7\u00e3o e da restaura\u00e7\u00e3o dos monumentos modernos demandam o estabelecimento de escolhas e de posicionamento claro do que deve ser apagado e do que deve ser mantido, com a an\u00e1lise das fun\u00e7\u00f5es ali desenvolvidas, para que se garanta a continuidade do uso. Deve ser buscada a qualidade das interven\u00e7\u00f5es, para que se possa configurar, por mais que sejam atualizadas na oferta de tecnologia, exemplares do testemunho do adoecimento e da cura da \u00e9poca da sua concep\u00e7\u00e3o, da sua t\u00e9cnica projetual e da tradu\u00e7\u00e3o temporal de sua implanta\u00e7\u00e3o e rela\u00e7\u00e3o com a cidade, para que possam caracterizar um testemunho da mem\u00f3ria da sa\u00fade.&nbsp;&nbsp;<\/div>\r\n<div>&nbsp;<\/div>\r\n<div><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/iph.org.br\/en\/img\/revistas:164009430116400943015112198865.jpg\" \/><\/div>\r\n<div>\r\n<div class=\"img-legend\" style=\"text-align: center;\"><strong><br \/>&nbsp;Figura 8 .<\/strong> Fachada oeste do Hospital da Lagoa. Fonte: M\u00f3dulo, Revista de Arquitetura e Artes, 1959.<\/div>\r\n<\/div>\r\n<br \/><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><br \/>As edifica\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e, em particular, as edifica\u00e7\u00f5es modernas, como o pr\u00e9dio do Hospital da Lagoa aqui estudado, podem ter sua preserva\u00e7\u00e3o corroborada pela forte liga\u00e7\u00e3o, em seus programas e suas implanta\u00e7\u00f5es, com as pol\u00edticas p\u00fablicas de sa\u00fade da \u00e9poca de sua concep\u00e7\u00e3o, o que refor\u00e7a o mencionado neste artigo a respeito das escolhas e do conhecimento da hist\u00f3ria da edifica\u00e7\u00e3o al\u00e9m das premissas utilizadas nas interven\u00e7\u00f5es de atualiza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do tempo.<br \/><br \/>\u00c9 importante destacar que o hospital apresentado neste trabalho foi inclu\u00eddo na lista de obras arquitet\u00f4nicas a serem protegidas e fichadas para o invent\u00e1rio de edif\u00edcios de sa\u00fade que comp\u00f5em o&nbsp;Homework, do Docomomo 2012\u00b3, que abordou a arquitetura hospitalar moderna brasileira, seus hospitais e sanat\u00f3rios.<br \/><br \/>Mesmo com os in\u00fameros problemas que cercam a conserva\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o do hospital, sua estrutura arquitet\u00f4nica permanece como um marco da arquitetura moderna e um exemplo da aplica\u00e7\u00e3o dos seus conceitos e tipologias na conforma\u00e7\u00e3o de edif\u00edcios complexos, como uma institui\u00e7\u00e3o hospitalar, desafiando a passagem do tempo e o impacto das sucessivas incorpora\u00e7\u00f5es de tecnologia.<br \/><br \/>Por essas raz\u00f5es, consideramos o Hospital da Lagoa um fundamental testemunho da hist\u00f3ria e do desenvolvimento articulado da medicina e da arquitetura, evidenciando a chegada de novos tempos e o estabelecimento do pensamento e da imagem do homem moderno. Ademais, recomendamos que a an\u00e1lise das a\u00e7\u00f5es de restauro e preserva\u00e7\u00e3o que enfrentou nos \u00faltimos anos seja objeto de estudo e reflex\u00e3o para apontar diretrizes para a conserva\u00e7\u00e3o destes e de outros exemplares de mem\u00f3ria da sa\u00fade do Rio de Janeiro.<br \/><br \/><strong>Refer\u00eancias<br \/><br \/><\/strong>ADAMS, William Howard.&nbsp;<b>Roberto Burle Marx: the unnatural art of the Garden<\/b>. The Museum of Modern Art, MoMA, New York. Exhibition catalogue: May 23-August 13, 1991. Em&nbsp;https:\/\/www.moma.org\/documents\/moma_catalogue_337_300298266.pdf.&nbsp;Acesso em 14 de maio de 2021.<br \/><br \/>\r\n<div>AGOSTINHO, Maria da Gra\u00e7a e AMORA, Ana Albano. Edif\u00edcios para a sa\u00fade e o processo de moderniza\u00e7\u00e3o em Florian\u00f3polis, um passo para a preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio moderno. In:&nbsp;<b>Anais.<\/b>.. 8\u00ba Semin\u00e1rio Docomomo Brasil. Docomomo RIO\/ PROURB, Rio de Janeiro, 2009.http:\/\/www.docomomo.org.br\/seminario%208%20pdfs\/101.pdf.&nbsp;Acesso em 14 de maio de 2021.<br \/><br \/><\/div>\r\n<div>AMORA, Ana Albano. Paulo Motta e a arquitetura de sa\u00fade em Santa Catarina, 1936\/1940: a contribui\u00e7\u00e3o do Curso de Arquitetura da ENBA. In:&nbsp;<b>Anais<\/b>... do 9\u00ba semin\u00e1rio DOCOMOMO Brasil: interdisciplinaridade e experi\u00eancias em documenta\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio recente. Bras\u00edlia, junho 2011.&nbsp;www.docomomobsb.org. Acesso em 20 de agosto de 2020.<br \/><br \/><\/div>\r\n<div>BRUAND, Yves.&nbsp;<b>Arquitetura Contempor\u00e2nea no Brasil<\/b>. S\u00e3o Paulo, Editora Perspectiva, 1981.<br \/><br \/><\/div>\r\n<div>CAMPOS, Ernesto de Souza.&nbsp;<b>Hist\u00f3ria e Evolu\u00e7\u00e3o dos Hospitais<\/b>. Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, Rio de Janeiro, 1944. Reedi\u00e7\u00e3o de 1965.<br \/><br \/><\/div>\r\n<div>CAMPOS, M\u00e1rcio Correia.&nbsp;<b>Niemeyer em Berlim: idas e vindas de um edif\u00edcio habitacional<\/b>. Arquitextos, Revista eletr\u00f4nica Vitruvius, S\u00e3o Paulo, abril, 2011.&nbsp;http:\/\/www.vitruvius.com.br\/revistas\/read\/arquitextos\/11.131\/3846. Acesso em 20 de agosto de 2020.<br \/><br \/><\/div>\r\n<div>CYTRYNOWICZ, Monica Musatti.<b>&nbsp;IPH: 60 anos de hist\u00f3ria<\/b>. Instituto de Pesquisas Hospitalares Arquiteto Jarbas Karman. S\u00e3o Paulo: Narrativa Um, 2014. (176 p.)<br \/><br \/><\/div>\r\n<div>COSTEIRA, Elza. Reflex\u00f5es sobre a Edifica\u00e7\u00e3o Hospitalar: um olhar sobre a moderna arquitetura de sa\u00fade no Brasil. In BITENCOURT, F\u00e1bio e COSTEIRA, Elza (orgs.)&nbsp;<b>Arquitetura e Engenharia Hospitalar: planejamento, projetos e perspectivas.<\/b>&nbsp;Rio Books, Rio de Janeiro, 2014.<br \/><br \/><\/div>\r\n<div>CUNHA, Claudia dos Reis; KODAIRA, Karina Terumi. O legado moderno na cidade contempor\u00e2nea: restaura\u00e7\u00e3o e uso.&nbsp;<b>Anais<\/b>... 8\u00b0 Semin\u00e1rio DOCOMOMO Brasil- Cidade Moderna e Contempor\u00e2nea: S\u00edntese e Paradoxo das Artes, 2009.<br \/><br \/><\/div>\r\n<div>DOCOMOMO.&nbsp;<b>Homework 2012.<\/b>&nbsp;DOCOMOMO Registers Typological Documentation. Health - 2012. Em&nbsp;http:\/\/docomomo.org.br\/old\/.&nbsp; Acesso em 15 de junho de 2020.<br \/><br \/><\/div>\r\n<div>GARRO, Jorge Alfonso Astorga e equipe.<b>&nbsp;Projeto B\u00e1sico de Restaura\u00e7\u00e3o do Hospital da Lagoa<\/b>. Documento. Memorial Descritivo do Projeto B\u00e1sico de Restaura\u00e7\u00e3o do Hospital da Lagoa. Relat\u00f3rio. Rio de Janeiro, 2010.<br \/><br \/><\/div>\r\n<div>GONSALES, C\u00e9lia Helena Castro.&nbsp;<b>A preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio moderno: Crit\u00e9rios e valores.<\/b>&nbsp;2\u00ba Semin\u00e1rio DOCOMOMO N-NE, Salvador, 2008.<\/div>\r\n<div><br \/>GOODWIN, Philip. Brazil Builds. Architecture new and old 1652-1942. MoMA, New York, 1943.<br \/><br \/><\/div>\r\n<div>IAB, S\u00e3o Paulo.&nbsp;<b>Planejamento de Hospitais<\/b>. Comiss\u00e3o de Planejamento de Hospitais. S\u00e3o Paulo, Instituto dos Arquitetos do Brasil, Departamento de S\u00e3o Paulo, 1954.<br \/><br \/><\/div>\r\n<div>M\u00d3DULO,&nbsp;<b>Revista de Arquitetura e Artes<\/b>. Rio de Janeiro, vol. 3, Ano III, n.14, Fernando Chinaglia S. A., agosto, 1959.<br \/><br \/><\/div>\r\n<div>MOREIRA, Fernando Diniz.&nbsp;<b>Os desafios postos pela conserva\u00e7\u00e3o da arquitetura moderna.<\/b>&nbsp;Textos para Discuss\u00e3o: S\u00e9rie Gest\u00e3o do Restauro. Editora Centro de Estudos Avan\u00e7ados da Conserva\u00e7\u00e3o Integrada: CECI. Olinda, 2010.<br \/><br \/><\/div>\r\n<div>OLIVEIRA, Jaime A. de Ara\u00fajo e TEIXEIRA, Sonia M. Fleury.&nbsp;<b>(Im) Previd\u00eancia Social: 60 Anos de Hist\u00f3ria da Previd\u00eancia no Brasil.<\/b>&nbsp;Ed. Vozes, ABRASCO, Rio de Janeiro, 1985.<br \/><br \/><\/div>\r\n<div>O GLOBO. Artigo.&nbsp;<b>Constr\u00f3i-se no Jardim Bot\u00e2nico o mais moderno hospital do Brasil<\/b>. Rio de Janeiro, Acervo do Jornal O Globo, 29 de julho de 1957, p.38. Dispon\u00edvel na internet em&nbsp;http:\/\/acervo.oglobo.globo.com&nbsp;.Acesso em 20 de agosto de 2020.<\/div>\r\n<div><br \/>PAPADAKI, Stamo.&nbsp;<b>Oscar Niemeyer: Works in Progress<\/b>. 2\u00ba ed. (1\u00ba ed. 1956). Nova York, Reinhold Publishing Corporation.1958, (p.52 a 59).<\/div>\r\n<div><br \/>REVISTA&nbsp;<b>L'Architecture d'Aujourd'hui<\/b>, vol. 26, n\u00ba 62 de 1955.<\/div>\r\n<div><br \/>RIEGL, Al\u00f6is.&nbsp;<b>O Culto Moderno dos Monumentos: a sua ess\u00eancia e sua origem.<\/b>&nbsp;Tradu\u00e7\u00e3o: Werner Rothschild Davidsohn, Anat Falbel. Editora Perspectiva, S\u00e3o Paulo, 2014.<br \/><br \/><\/div>\r\n<div>XAVIER, Alberto, BRITTO, Alfredo e NOBRE, Ana Luiza.&nbsp;<b>Arquitetura Moderna no Rio de Janeiro<\/b>. RIOARTE, Funda\u00e7\u00e3o Vilanova Artigas. Editora PINI, S\u00e3o Paulo, 1991.<\/div>","protected":false},"featured_media":0,"template":"","class_list":["post-8068","materia","type-materia","status-publish","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/materia\/8068","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/materia"}],"about":[{"href":"https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/materia"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8068"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}