{"id":8140,"date":"2024-06-27T10:53:28","date_gmt":"2024-06-27T13:53:28","guid":{"rendered":"https:\/\/iph.org.br\/?post_type=materia&#038;p=8140"},"modified":"2024-08-08T16:31:43","modified_gmt":"2024-08-08T19:31:43","slug":"evolucao-da-edificacao-hospitalar-seu-alinhamento-com-as-ciencias-medicas-e-o-cuidado-com-o-paciente-na-cidade-de-sao-paulo","status":"publish","type":"materia","link":"https:\/\/iph.org.br\/en\/materia\/evolucao-da-edificacao-hospitalar-seu-alinhamento-com-as-ciencias-medicas-e-o-cuidado-com-o-paciente-na-cidade-de-sao-paulo\/","title":{"rendered":"Evolu\u00e7\u00e3o da edifica\u00e7\u00e3o hospitalar, seu alinhamento com as ci\u00eancias m\u00e9dicas e o cuidado com o paciente na cidade de S\u00e3o Paulo"},"content":{"rendered":"<strong>Resumo<\/strong><br \/>No decorrer da hist\u00f3ria de S\u00e3o Paulo, as edifica\u00e7\u00f5es hospitalares revelaram que o fator cultural foi determinante em sua concep\u00e7\u00e3o. No per\u00edodo colonial, a assist\u00eancia m\u00e9dica era oferecida pela igreja, com car\u00e1ter filantr\u00f3pico. O desenvolvimento das ci\u00eancias m\u00e9dicas, ocorrido, em especial, na Europa, durante o s\u00e9culo XIX, promoveu a ado\u00e7\u00e3o da tipologia pavilhonar nas edifica\u00e7\u00f5es hospitalares. Com o crescimento da popula\u00e7\u00e3o e o avan\u00e7o da tecnologia, as edifica\u00e7\u00f5es hospitalares do s\u00e9culo XX adotaram o partido do monobloco, e o hospital passou a ser uma m\u00e1quina de cura. Este artigo teve como objetivo discutir a evolu\u00e7\u00e3o das edifica\u00e7\u00f5es hospitalares e o seu alinhamento com a ci\u00eancia e a cultura do cuidado com o paciente, ocorridos na cidade de S\u00e3o Paulo. Este embasamento hist\u00f3rico permite estabelecer par\u00e2metros futuros para serem adotados no conceito sobre hospital.<br \/><strong><br \/>Palavras-chave:<\/strong><br \/>arquitetura hospitalar, tipologia arquitet\u00f4nica, cuidado com o paciente.<br \/><br \/><strong>1. Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>A cidade de S\u00e3o Paulo passou por movimentos cient\u00edficos, culturais, pol\u00edticos e administrativos que tiveram um significativo impacto em sua malha urbana, na sociedade e tamb\u00e9m nas edifica\u00e7\u00f5es hospitalares, conforme figura 1.<br \/>\r\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\"><b><strong><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-8318 aligncenter\" src=\"https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/figura-1-300x167.png\" alt=\"\" width=\"657\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/figura-1-300x167.png 300w, https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/figura-1.png 576w\" sizes=\"(max-width: 657px) 100vw, 657px\" \/>Figura 1.<\/strong><\/b>&nbsp;Diagrama com resumo da evolu\u00e7\u00e3o da tipologia arquitet\u00f4nica de acordo com os diferentes per\u00edodos hist\u00f3ricos, sistemas administrativos e conceitos cient\u00edficos.<\/p>\r\n<p style=\"font-weight: 300;\"><strong>2. Per\u00edodo colonial e as edifica\u00e7\u00f5es para sa\u00fade&nbsp;<\/strong><br \/>No in\u00edcio do per\u00edodo colonial, as pr\u00e1ticas m\u00e9dicas eram administradas pelos jesu\u00edtas, que possu\u00edam os conhecimentos da botica europeia e dos paj\u00e9s ind\u00edgenas. Posteriormente, de forma prec\u00e1ria, surgiu um n\u00famero limitado de profissionais da sa\u00fade em S\u00e3o Paulo (Lomonaco, 2004). O conceito - m\u00e9dico-cient\u00edfico era permeado por crendices e supersti\u00e7\u00f5es. Visto que os enfermos eram tratados em casa, as enfermarias apresentavam um car\u00e1ter improvisado e tempor\u00e1rio, tendo por objetivo segregar de modo compuls\u00f3rio e espacial os doentes. O conceito m\u00e9dico e a edifica\u00e7\u00e3o eram pautados na filantropia; e o cuidado era oferecido pela igreja com objetivo de proporcionar locais para a reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus e a morte (Campagnol, 2014).<br \/><br \/>A parte final do s\u00e9culo XVIII apresentou uma gradativa difus\u00e3o da teoria miasm\u00e1tica, pela qual o meio f\u00edsico se tornava fonte para transmiss\u00e3o ou causa das doen\u00e7as. As pol\u00edticas sanit\u00e1rias consistiam em medidas preventivas para o combate de doen\u00e7as, delimitando os locais a serem instalados os equipamentos tidos como fontes de miasmas. Este conceito trouxe impactos sobre as constru\u00e7\u00f5es arquitet\u00f4nicas e o espa\u00e7o urbano. Pela an\u00e1lise da Planta da Imperial Cidade de S\u00e3o Paulo\" - 1841, se observa uma concentra\u00e7\u00e3o de equipamentos, tidos como poluidores, localizados nas extremidades Norte e sul da cidade (Costa, 2011).<br \/><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-8317 aligncenter\" src=\"https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/figura-2-1-261x300.png\" alt=\"\" width=\"638\" height=\"733\" srcset=\"https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/figura-2-1-261x300.png 261w, https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/figura-2-1.png 576w\" sizes=\"(max-width: 638px) 100vw, 638px\" \/><\/p>\r\n<div class=\"img-legend\" style=\"text-align: center;\"><b>Figura 2.<\/b>&nbsp;Planta da cidade de S\u00e3o Paulo de 1941, com a identifica\u00e7\u00e3o do Hospital da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia, em frente ao Cemit\u00e9rio dos Aflitos, na regi\u00e3o Sul, e do Hospital dos L\u00e1zaros, no Norte da cidade. Fonte: BRESSER, C. A. <strong>Planta da Cidade de S\u00e3o Paulo<\/strong>. In: Comiss\u00e3o do IV Centen\u00e1rio de S\u00e3o Paulo. S\u00e3o Paulo Antigo: Plantas da Cidade. S\u00e3o Paulo, SP. 1954, p. 4. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www. arquiamigos.org.br\/info\/info20\/i-1841b.htm. Modificado.<\/div>\r\n<div>\r\n<div><br \/>\r\n<div>O Hospital da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia foi instalado em 1825, na sede da Ch\u00e1cara dos Ingleses, na regi\u00e3o sul da cidade. Esta localiza\u00e7\u00e3o era estrat\u00e9gica, devido \u00e0 proximidade com o Cemit\u00e9rio dos Aflitos, criado no s\u00e9culo XVIII. No entanto, por n\u00e3o apresentar caracter\u00edsticas construtivas apropriadas para o desenvolvimento da fun\u00e7\u00e3o hospitalar, foi elaborado um novo projeto para a sede da Santa Casa, em 1832, pelo engenheiro militar Marechal de Campo Daniel Pedro Muller. A nova constru\u00e7\u00e3o foi inaugurada em 1840, ocupando uma \u00e1rea dentro dos terrenos da mesma ch\u00e1cara. Na outra extremidade da cidade, havia outro equipamento de sa\u00fade, o Hospital dos L\u00e1zaros, constru\u00eddo e administrado pela Irmandade da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia. Esta edifica\u00e7\u00e3o apresentava condi\u00e7\u00f5es construtivas extremamente prec\u00e1rias e era destinada aos portadores de lepra que perambulavam pela cidade e comportava um n\u00famero de enfermos maior que sua capacidade construtiva (Campos, 2011).<i>&nbsp;<\/i><\/div>\r\n<\/div>\r\n<\/div>\r\n<br \/><strong>3. Estabelecimentos hospitalares durante o imp\u00e9rio<br \/><\/strong>Nas d\u00e9cadas finais do s\u00e9culo XIX, o fortalecimento da cultura do caf\u00e9 levou a cidade de S\u00e3o Paulo a mudan\u00e7as sociais e econ\u00f4micas significativas. A constru\u00e7\u00e3o da ferrovia Santos-Jundia\u00ed, entre 1860 e 1867, pela empresa Railway Company, proporcionou melhor escoamento da produ\u00e7\u00e3o de caf\u00e9. A linha f\u00e9rrea promoveu o crescimento de bairros ao Leste da cidade. As quest\u00f5es de sa\u00fade p\u00fablica e de melhoria das condi\u00e7\u00f5es da assist\u00eancia hospitalar se tornaram alvo de interesse por parte dos governadores e donos das fazendas de caf\u00e9. O motivo principal deste interesse era intensificar o processo imigrat\u00f3rio, garantindo, assim, a m\u00e3o de obra para as lavouras (Mota, 2007).<br \/><br \/>O projeto do Hospital da Sociedade Portuguesa de Benefic\u00eancia, de 1873 a 1876, de Manuel Gon\u00e7alves da Silva Cantarino, revela a introdu\u00e7\u00e3o de conceitos higienistas nas edifica\u00e7\u00f5es hospitalares. Estes conceitos tamb\u00e9m ficaram evidentes no projeto do Hospital dos Variolosos, projetado pelo engenheiro In\u00e1cio Wallace da Gama Cochrane, de 1878 a 1880. A edifica\u00e7\u00e3o foi idealizada e composta por um sistema linear, com duas enfermarias laterais unidas por um corpo central (Campos, 2011).<br \/><br \/>No entanto, a edifica\u00e7\u00e3o que representou um marco na arquitetura hospitalar desta \u00e9poca foi a nova sede do Hospital da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia, constru\u00edda entre 1881 e 1884. A sele\u00e7\u00e3o do projeto do engenheiro Luiz Pucci para o hospital ocorreu por meio de um concurso. O partido adotado foi o sistema pavilhonar, em que as enfermarias eram edifica\u00e7\u00f5es independentes, unidas por corredores de circula\u00e7\u00e3o, que formavam os limites de um p\u00e1tio central. Os pavilh\u00f5es eram providos de amplas aberturas voltadas para o sentido Leste-Oeste e separados por um jardim, privilegiando a ilumina\u00e7\u00e3o e a circula\u00e7\u00e3o de ar. Este conceito estava alinhado com o sistema adotado na Europa desde o s\u00e9culo XVIII (Campagnol, 2014; Silveira, 2019).<br \/><br \/>As edifica\u00e7\u00f5es hospitalares, nesse momento, come\u00e7aram a ser vistas como equipamentos promotores de desenvolvimento urbano. A an\u00e1lise da Planta da Capital do Estado de S. Paulo, de 1890, aponta o crescimento urbano no entorno do Hospital da Sociedade Portuguesa de Benefic\u00eancia, na regi\u00e3o central, e do Hospital da Santa Casa, instalado no setor Oeste da cidade.<br \/><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-8316 aligncenter\" src=\"https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/figura-3-1-263x300.png\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"729\" srcset=\"https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/figura-3-1-263x300.png 263w, https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/figura-3-1.png 572w\" sizes=\"(max-width: 639px) 100vw, 639px\" \/>\r\n<div class=\"img-legend\" style=\"text-align: center;\"><b>Figura 3.<\/b> Planta da Capital do Estado de S\u00e3o Paulo, 1890. O crescimento da cidade ocorre principalmente no eixo - Leste-Oeste. S\u00e3o identificados, neste mapa, tr\u00eas estabelecimentos hospitalares, j\u00e1 inseridos na malha urbana. O Hospital dos Variolosos, implantado fora do limite Oeste da cidade, n\u00e3o est\u00e1 representado neste mapa. Fonte: MARTIN, Jules. <strong>Planta da Capital do Estado de S\u00e3o Paulo e seus Arrabaldes<\/strong>. In: Comiss\u00e3o do IV Centen\u00e1rio de S\u00e3o Paulo. S\u00e3o Paulo Antigo: Plantas da Cidade. S\u00e3o Paulo, SP. 1954, p. 10. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.arquiamigos.org.br\/info\/info20\/i-1890. htm Acesso em: 10 set. 2022. Modificado.<\/div>\r\n<div>\r\n<div>\r\n<p><strong><br \/>4. O sistema de sa\u00fade entre a Primeira Rep\u00fablica at\u00e9 os dias atuais<br \/><\/strong>O fim do regime mon\u00e1rquico e o in\u00edcio da Rep\u00fablica alterou a pol\u00edtica de sa\u00fade, viabilizando a constru\u00e7\u00e3o de novas unidades hospitalares. O arquiteto e engenheiro Francisco de Paula Ramos de Azevedo elaborou importantes edifica\u00e7\u00f5es hospitalares. Seus projetos hospitalares utilizaram o partido pavilhonar tanto no Hospital Militar, localizado no bairro da Luz (1898 a 1899), como no Hosp\u00edcio do Juqueri (1895 a 1898). As enfermarias com os leitos eram implantadas em pavilh\u00f5es independentes, separados por jardins e interligados por meio de galerias para circula\u00e7\u00e3o (Costa, 2011).&nbsp;<\/p>\r\n<\/div>\r\n<\/div>\r\nNo Hospital de Isolamento, foi adotada a tipologia conhecida como sistemas de barracas, remetendo aos hospitais de campanha militar. Os pavilh\u00f5es, como ent\u00e3o eram chamados os pr\u00e9dios de interna\u00e7\u00e3o, os blocos de servi\u00e7o e o setor administrativo ficavam separados por grandes jardins; utilizando o mesmo lote do Hospital dos Variolosos, de 1880. Os pavilh\u00f5es, projetados pelo engenheiro Teodoro Fernandes Sampaio, apresentavam caracter\u00edsticas de chal\u00e9s lineares, contemplados com varandas, e foram constru\u00eddos no per\u00edodo de 1878 a 1894. Outras edifica\u00e7\u00f5es foram acrescentadas nas d\u00e9cadas seguintes, como o Instituto de Higiene, em 1917, a Faculdade de Medicina e Cirurgia, em 1931, e o Hospital das Cl\u00ednicas de S\u00e3o Paulo, em 1944, tornando-se um importante polo para o setor de sa\u00fade p\u00fablica, status que se mant\u00e9m atualmente (Silveira, 2019). <br \/><br \/>No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, o novo entendimento cient\u00edfico sobre a propaga\u00e7\u00e3o das doen\u00e7as, possibilitado pela compreens\u00e3o da bacteriologia, favoreceu a ado\u00e7\u00e3o de uma nova tipologia hospitalar, que passou a ter um bloco compacto com v\u00e1rios pavimentos. Fatores ambientais, como jardins projetados, foram descontinuados, e se iniciou a substitui\u00e7\u00e3o da ventila\u00e7\u00e3o e da ilumina\u00e7\u00e3o natural por sistemas tecnol\u00f3gicos (Costa, 2011; Toledo, 2020).<br \/><br \/>Durante o governo de Get\u00falio Vargas, foi criado o Minist\u00e9rio dos Neg\u00f3cios da Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade P\u00fablica, em 1930. Por meio do departamento de Divis\u00e3o de Organiza\u00e7\u00e3o Hospitalar ? DOH, criado em 1941, houve uma organiza\u00e7\u00e3o de diretrizes para a \u00e1rea da sa\u00fade, procurando criar, assim, uma sistematiza\u00e7\u00e3o, padroniza\u00e7\u00e3o e especializa\u00e7\u00e3o dos hospitais, visando sua economia (Ribeiro, 2020). O pr\u00f3prio edif\u00edcio deste minist\u00e9rio representou um \u00edcone da arquitetura moderna, sendo o resultado do trabalho do grupo de arquitetos coordenado por L\u00facio Costa e composto por Affonso Eduardo Reidy, Carlos Le\u00e3o, Jorge Moreira, Ernani Vasconcellos, Oscar Niemeyer, com consultoria de Le Corbusier (Benevolo, 2014).<br \/><br \/>A complexidade que as edifica\u00e7\u00f5es hospitalares adquiriram levou o IAB-SP (Instituto de Arquitetos do Brasil) a oferecer um curso sobre o planejamento hospitalar, coordenado pelos arquitetos Rino Levi, Amador Cintra do Prado e Jarbas Karman, na d\u00e9cada de 1950 (Costa, 2011).<br \/><br \/>Rino Levi e seu s\u00f3cio, o tamb\u00e9m arquiteto e engenheiro Roberto Cerqueira C\u00e9sar, tiveram not\u00e1vel contribui\u00e7\u00e3o para a arquitetura moderna de S\u00e3o Paulo. Entre seus projetos, est\u00e3o a Maternidade do Hospital das Cl\u00ednicas, projeto que, embora n\u00e3o tenha sido executado, foi ganhador de pr\u00eamios de arquitetura e se destacou em diversas publica\u00e7\u00f5es mundiais. Tamb\u00e9m foram respons\u00e1veis pelo projeto do Hospital Ant\u00f4nio C\u00e2ndido Camargo, atual Instituto do C\u00e2ncer, em 1954, e do Hospital Albert Einstein, em 1958. Nestes projetos houve a preocupa\u00e7\u00e3o com a organiza\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o, o agrupamento das fun\u00e7\u00f5es com divis\u00e3o em blocos interligados e a flexibilidade dos espa\u00e7os para comportar futuras modifica\u00e7\u00f5es (Belleza, 2003; Aranha, 2008; Costa, 2011).<br \/><br \/>A amplia\u00e7\u00e3o gradativa de programas para o atendimento da popula\u00e7\u00e3o, como o Instituto Nacional de Previd\u00eancia Social - INPS, em 1966, o Instituto Nacional de Assist\u00eancia M\u00e9dica da Previd\u00eancia Social - INAMPS, em 1977, e, por fim, o Sistema \u00danico de Sa\u00fade - SUS, em 1988, gerou um crescimento expressivo da demanda por novas unidades hospitalares. O resultado foi a intensifica\u00e7\u00e3o do esfor\u00e7o, por parte do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, para normatizar e padronizar as edifica\u00e7\u00f5es hospitalares. Entre 1965 e 1974, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade publicou normas e dimensionamentos m\u00ednimos para a constru\u00e7\u00e3o de hospitais, sendo substitu\u00eddas posteriormente pela Portaria n.\u00ba 400, de 1977, e pela Portaria n.\u00ba 1884, de 1994, que vigoraram at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o da RDC n.\u00ba 50, de 20 de mar\u00e7o de 2002, pela Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria - ANVISA. Estas legisla\u00e7\u00f5es normativas definiram aspectos como o dimensionamento dos ambientes, o escopo do projeto e as etapas projetuais (Toledo, 2020).<br \/><br \/>De acordo com a an\u00e1lise do mapa digital da Cidade de S\u00e3o Paulo, dispon\u00edvel pelo portal GeoSampa, foram identificadas 217 unidades hospitalares, 463 Unidades B\u00e1sicas de Sa\u00fade ? UBS e 55 estabelecimentos de atendimento de urg\u00eancia no munic\u00edpio. A localiza\u00e7\u00e3o destes equipamentos n\u00e3o se encontra de forma homog\u00eanea. Verifica-se que os estabelecimentos hospitalares est\u00e3o concentrados nas regi\u00f5es centrais, que apresentaram n\u00fameros mais baixos de UBS. \u00c0 medida que ocorre o afastamento destes distritos, h\u00e1 uma invers\u00e3o: as edifica\u00e7\u00f5es hospitalares aparecem em menor quantidade, e o n\u00famero de UBS aumenta (PMSP, 2022).<br \/><br \/>Os distritos que apresentaram um maior n\u00famero de estabelecimentos hospitalares foram Bela Vista, com 19 unidades, e Vila Mariana, com 22 unidades. De acordo com o \u00cdndice Paulista de Vulnerabilidade Social - IPVS, tamb\u00e9m dispon\u00edvel no GeoSampa, estes distritos est\u00e3o classificados, essencialmente, como grupo 1, de baix\u00edssima vulnerabilidade. Demonstrando a tend\u00eancia de valoriza\u00e7\u00e3o da malha urbana que estes equipamentos promoveram. Alguns distritos mais perif\u00e9ricos, caracterizados como grupo 5, de vulnerabilidade alta, e como grupo 6, de vulnerabilidade muito alta, possu\u00edam um n\u00famero menor de edifica\u00e7\u00f5es hospitalares, como ocorreu na subprefeitura de Campo Limpo, Cidade Ademar e Perus (PMSP, 2022).<br \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-8315 aligncenter\" src=\"https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/figura-4-300x218.png\" alt=\"\" width=\"651\" height=\"473\" srcset=\"https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/figura-4-300x218.png 300w, https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/figura-4.png 587w\" sizes=\"(max-width: 651px) 100vw, 651px\" \/>\r\n<div>\r\n<div class=\"img-legend\" style=\"text-align: center;\"><b>Figura 4<\/b>.&nbsp;<strong>Mapa GeoSampa<\/strong>. No mapa A, s\u00e3o identificados os equipamentos hospitalares e de urg\u00eancia, com maior concentra\u00e7\u00e3o nas regi\u00f5es centrais. O mapa B identifica as UBSs (Unidades B\u00e1sicas de Sa\u00fade), os Postos e Centros de Sa\u00fade, localizados de forma mais expressiva nas regi\u00f5es perif\u00e9ricas. Fonte: Prefeitura Municipal de S\u00e3o Paulo. GeoSampa Mapa. Dispon\u00edvel em: http:\/\/ geosampa.prefeitura.sp.gov.br\/PaginasPublicas\/_SBC.aspx. Acesso em: 10 set. 2022. Modificado.<\/div>\r\n<\/div>\r\n<div><br \/>O resultado das pol\u00edticas de sistematiza\u00e7\u00e3o e economia geraram uma car\u00eancia nas edifica\u00e7\u00f5es hospitalares p\u00fablicas, que, em sua maioria, se apresentam \u00e1ridas e estritamente funcionais. Esta linguagem arquitet\u00f4nica destoa das pesquisas cient\u00edficas desenvolvidas nas \u00faltimas d\u00e9cadas, como, por exemplo, o<em> evidence-based design<\/em>, em que a edifica\u00e7\u00e3o passa a ser uma forma de tratamento ao paciente e aprimora a efic\u00e1cia da equipe t\u00e9cnica (Guelli, 2005). As defici\u00eancias da rede p\u00fablica de sa\u00fade abriram espa\u00e7o para a iniciativa privada, regulamentada atrav\u00e9s da lei n.\u00ba 9656, de 1998, com a defini\u00e7\u00e3o de regras para atua\u00e7\u00e3o dos planos privados de assist\u00eancia m\u00e9dica (Toledo, 2020).<br \/><br \/>A crise sanit\u00e1ria causada pela pandemia da Covid-19 intensificou os questionamentos sobre a atual estrutura hospitalar, expondo a necessidade de adapta\u00e7\u00e3o da edifica\u00e7\u00e3o para comportar novas demandas. Com isso, os debates sobre o hospital do futuro, cujo foco, principalmente, era a introdu\u00e7\u00e3o de recursos tecnol\u00f3gicos, foram ampliados. Instigando essa discuss\u00e3o, o <em>Office for Metropolitan Architectur<\/em>e - OMA e seu s\u00f3cio, o arquiteto Reinier de Graaf, produziram um manifesto visual, por meio do filme <em>The Hospital of the Future<\/em>. Exibido na 17\u00aa Bienal de Arquitetura de Veneza, em 2021, o curta-metragem exp\u00f4s os problemas do atual modelo de sa\u00fade, assim como a necessidade de edifica\u00e7\u00f5es autossuficientes e tecnol\u00f3gicas contextualizadas na malha urbana. As discuss\u00f5es levantadas no manifesto foram ampliadas no desenvolvimento do Plano Diretor para o Distrito de Sa\u00fade de <em>Al Daayan<\/em>, tamb\u00e9m elaborado pelo<em> Office for Metropolitan Architecture<\/em>. Neste projeto foram propostas unidades modulares, que podem ser reconfiguradas de diversas formas, utilizando impress\u00e3o 3D, automatiza\u00e7\u00e3o do sistema e com uso de energia solar, para garantir o funcionamento de forma aut\u00f4noma, impactando a pr\u00e1tica cl\u00ednica e o modelo de cuidado com o paciente.<br \/><br \/><strong>5. Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><br \/>As edifica\u00e7\u00f5es hospitalares na cidade de S\u00e3o Paulo apresentaram diversas tipologias e formas administrativas. Durante o per\u00edodo colonial, estas institui\u00e7\u00f5es tinham car\u00e1ter filantr\u00f3pico, eram administradas por entidades religiosas e o seu conhecimento cient\u00edfico era influenciado por cren\u00e7as populares. Posteriormente, a evolu\u00e7\u00e3o da economia e a necessidade de garantir m\u00e3o de obra tornaram os servi\u00e7os de sa\u00fade uma quest\u00e3o sanit\u00e1ria, que passaram a ser desempenhados pelas institui\u00e7\u00f5es governamentais (Campos,2011). A teoria miasm\u00e1tica era um conceito muito difundido e influenciou diretamente as constru\u00e7\u00f5es hospitalares, marcadas pela tipologia pavilhonar. Neste modelo, a constru\u00e7\u00e3o fazia parte do processo de tratamento. O desenvolvimento de novas tecnologias construtivas e a introdu\u00e7\u00e3o do conceito bacteriol\u00f3gico favoreceram a ado\u00e7\u00e3o de uma nova tipologia, que consistia em um bloco compacto verticalizado (Costa, 2011). Este conceito \u00e9 amplamente utilizado at\u00e9 os dias atuais. No entanto, com a amplia\u00e7\u00e3o da presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os e a ado\u00e7\u00e3o de normas e sistematiza\u00e7\u00f5es, visando a economia, a edifica\u00e7\u00e3o hospitalar tornou-se \u00e1rida e estritamente funcional, favorecendo o aumento do n\u00edvel de estresse e ansiedade experimentado pelo paciente (Toledo, 2020). Pesquisas cient\u00edficas desenvolvidas recentemente, dentro do conceito do <em>evidence-based design<\/em>, comprovam a influ\u00eancia que o ambiente constru\u00eddo exerce na recupera\u00e7\u00e3o do paciente e no bem-estar da equipe t\u00e9cnica. O debate sobre a adaptabilidade da edifica\u00e7\u00e3o, frente ao uso da tecnologia, ganhou \u00edmpeto ap\u00f3s a pandemia de Covid-19 (Graaf, 2021). Os caminhos para o hospital do futuro devem refor\u00e7ar o papel que esta institui\u00e7\u00e3o exerce na manuten\u00e7\u00e3o da vida e na promo\u00e7\u00e3o do bem-estar de seus ocupantes.<br \/><br \/><strong>Referencias&nbsp;<br \/><\/strong><br \/>\r\n<div>ARANHA, M. B. C.&nbsp;<b>A obra de Rino Levi e a trajet\u00f3ria da arquitetura moderna no Brasil.<\/b>&nbsp;Tese Doutorado, Orientador Professor Dr. Lucio Gomes Machado, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de S\u00e3o Paulo, 2008. Dispon\u00edvel em: https:\/\/teses. usp.br\/teses\/disponiveis\/16\/16133\/tde-29032010-153615\/pt-br. php#:~:text=O%20objetivo%20desta%20tese%20%C3%A9,marcos%20 arquitet%C3%B4nicos%20ou%20arquitetos%20inaugurais. Acesso em: 12 ago. 2022.<br \/><br \/>BELLEZA, G.&nbsp;<b>Roberto Cerqueira C\u00e9sar (1917-2003).<\/b>&nbsp;Arquitextos, S\u00e3o Paulo, ano 04, n. 038.07, Vitruvius, jul. 2003 (ISSN 1809-6298). Dispon\u00edvel em: https:\/\/vitruvius.com.br\/revistas\/read\/arquitextos\/04.038\/671. Acesso em: 12 ago. 2022.<\/div>\r\n<div>&nbsp;<\/div>\r\n<div>BENEVOLO, L.&nbsp;<b>Hist\u00f3ria da Arquitetura Moderna.&nbsp;<\/b>S\u00e3o Paulo, SP, Ed. Perspectiva, 2016 - 2. Reimpress\u00e3o 5\u00aaedi\u00e7\u00e3o, 2014.&nbsp;<\/div>\r\n<div>&nbsp;<\/div>\r\n<div>BRESSER. C. A.&nbsp;<b>Planta da Cidade de S\u00e3o Paulo.&nbsp;<\/b>In: Comiss\u00e3o do IV Centen\u00e1rio de S\u00e3o Paulo. S\u00e3o Paulo Antigo: Plantas da Cidade. S\u00e3o Paulo, SP. 1954, p. 4. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.arquiamigos.org.br\/info\/info20\/i1841b.htm. Acesso em: 10 set. 2022.<\/div>\r\n<div>&nbsp;<\/div>\r\n<div>CAMPAGNOL G., SHEPLEY M.M.<b>&nbsp;Positive distraction and the rehabilitation hospitals of Jo\u00e3o Filgueiras Lima.<\/b>&nbsp;HERD. 2014 Fall; 8(1):199-227. Doi: 10.1177\/193758671400800113. PMID: 25816190.<br \/><br \/>CAMPOS, E.&nbsp;<b>Hospitais paulistanos: do s\u00e9culo XVI ao XIX.<\/b>&nbsp;Informativo Arquivo Hist\u00f3rico de S\u00e3o Paulo, 6 (29): Abr\/Jun.2011. Dispon\u00edvel em: http:\/\/ www.arquiamigos.org.br\/info\/info29\/i-estudos.htm#VOLTA021. Acesso em: 12 ago. 2022.<br \/><br \/>COSTA, R. G. R.<b>&nbsp;Arquitetura Hospitalar em S\u00e3o Paulo.<\/b>&nbsp;In: MOTT, M. L.; SANGLARD, G.\/organizadoras. (2011).&nbsp;<b>Hist\u00f3ria da sa\u00fade em S\u00e3o Paulo:<\/b>&nbsp;<b>institui\u00e7\u00f5es e patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico (1808 - 1958).<\/b>&nbsp;Barueri, SP: Minha Editora, 2011, p: 25-61.<br \/><br \/>GRAAF, R.; OMA.&nbsp;<b>The hospital of the future.<\/b>&nbsp;2021. Dispon\u00edvel em: https:\/\/ www.oma.com\/projects\/the-hospital-of-the-future. Acesso em: 12.08.2022.<br \/><br \/>GRAAF, R.; OMA; SQUINT.&nbsp;<b>Al Daayan Health District Masterplan.&nbsp;<\/b>2022.<br \/>Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.oma.com\/projects\/al-daayan-health-districtmasterplan. Acesso em: 12 ago. 2022.<br \/><br \/>GUELLI, A. e ZUCCHI, P.&nbsp;<b>A influ\u00eancia do espa\u00e7o f\u00edsico na recupera\u00e7\u00e3o do paciente e os sistemas e instrumentos de avalia\u00e7\u00e3o.<\/b> Revista de Administra\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade, Bras\u00edlia, Brasil - vol. 7: (27), abr-jun, 2005.<\/div>\r\n<\/div>","protected":false},"featured_media":0,"template":"","class_list":["post-8140","materia","type-materia","status-publish","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/materia\/8140","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/materia"}],"about":[{"href":"https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/materia"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8140"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}