{"id":8717,"date":"2024-11-20T10:22:31","date_gmt":"2024-11-20T13:22:31","guid":{"rendered":"https:\/\/iph.org.br\/materia\/quando-a-ventilacao-natural-saiu-de-moda-nos-hospitais-como-os-hospitais-foram-de-resorts-de-luxo-para-caixas-sem-janelas\/"},"modified":"2024-11-20T10:25:26","modified_gmt":"2024-11-20T13:25:26","slug":"quando-a-ventilacao-natural-saiu-de-moda-nos-hospitais-como-os-hospitais-foram-de-resorts-de-luxo-para-caixas-sem-janelas","status":"publish","type":"materia","link":"https:\/\/iph.org.br\/en\/materia\/quando-a-ventilacao-natural-saiu-de-moda-nos-hospitais-como-os-hospitais-foram-de-resorts-de-luxo-para-caixas-sem-janelas\/","title":{"rendered":"Quando a ventila\u00e7\u00e3o natural saiu de moda nos hospitais &#8211; Como os hospitais foram de resorts de luxo para caixas sem janelas"},"content":{"rendered":"Na edi\u00e7\u00e3o de mar\u00e7o de 1942 da revista Modern Hospital, Charles F. Neergaard, um proeminente consultor hospitalar da cidade de Nova Iorque, publicou um&nbsp;<em>layout&nbsp;<\/em>do setor de interna\u00e7\u00e3o que era t\u00e3o inovador que ele registrou os direitos autorais do desenho. O plano apresentava duas unidades de enfermaria - grupos de quartos supervisionados por uma \u00fanica equipe de enfermagem - numa \u00fanica ala da constru\u00e7\u00e3o. Para cada unidade, um corredor dava acesso a uma fileira de pequenos quartos ao longo de uma parede exterior e para uma \u00e1rea de atendimento compartilhada entre os dois corredores. Qual a caracter\u00edstica que tornou essa planta t\u00e3o inovadora - e, portanto, arriscada? Ela inclu\u00eda quartos que n\u00e3o tinham janelas.<br \/><br \/>Hoje em dia, dificilmente um quarto sem janela seria considerado inovador, mas nos idos de 1940 era uma proposta chocante para uma ala de pacientes. Ela violava um entendimento duradouro do que deveria ser exatamente o papel do edif\u00edcio hospitalar enquanto promotor de sa\u00fade.<br \/><br \/>Por quase dois s\u00e9culos o planejamento de hospitais embasou seus desenhos numa hip\u00f3tese fundamental: os espa\u00e7os hospitalares precisavam de acesso direto \u00e0 luz solar e ao ar fresco para se manterem livres de doen\u00e7as e com o ambiente saud\u00e1vel. Essa regra foi produto de cren\u00e7as centen\u00e1rias de que as doen\u00e7as poderiam se espalhar ou seriam diretamente causadas por espa\u00e7os estanques e escuros onde se acumulava o ar ruim, f\u00e9tido, viciado, parado e carregado de part\u00edculas.<br \/><br \/>Ao final do s\u00e9culo 18, essa correla\u00e7\u00e3o era estatisticamente correta. As epidemias sempre atingiram com mais for\u00e7a os moradores dos distritos urbanos empobrecidos e superpovoados do que os habitantes de vizinhan\u00e7as mais ricas e arejadas. Os pacientes sofriam com infec\u00e7\u00f5es cruzadas e infec\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias com maior frequ\u00eancia nos grandes hospitais urbanos do que aqueles de hospitais em cidades pequenas ou rurais. Era conhecimento comum que ambientes sem janelas n\u00e3o causavam diretamente as doen\u00e7as, eles criavam as condi\u00e7\u00f5es que levavam \u00e0s doen\u00e7as.<br \/><br \/>Dada essa correla\u00e7\u00e3o, antes do s\u00e9culo 20, todo quarto de hospital tinha, usualmente, acesso ao exterior. Os corredores tinham janelas. Os arm\u00e1rios de rouparia tinham janelas. Em alguns hospitais, at\u00e9 dutos, gabinetes de encanamentos, de esgoto, e os espelhos das escadas chegavam a ter janelas. As janelas nos quartos e nas salas de cirurgia eram t\u00e3o grandes que o brilho causava problemas - deixando pacientes acordados e gerando cegueira tempor\u00e1ria em cirurgi\u00f5es durante as opera\u00e7\u00f5es.<br \/><br \/>Ao final do s\u00e9culo 19 e in\u00edcio do s\u00e9culo 20, ocorreram avan\u00e7os te\u00f3ricos na medicina e as pr\u00e1ticas se alteraram, mas n\u00e3o ofuscaram a f\u00e9 nas janelas. Com o desenvolvimento da teoria sobre os micr\u00f3bios, luz e ar fresco tinham novos prop\u00f3sitos. Experimentos comprovavam que a luz ultravioleta era germicida. Assim, janelas de vidro transparente, ou at\u00e9 mesmo vidros especiais - os \"vita-glass\" - que n\u00e3o bloqueavam os raios UV - eram usados como formas de descontamina\u00e7\u00e3o das superf\u00edcies.<br \/><br \/>Do mesmo modo, os registros dos sanat\u00f3rios para tuberculosos provavam que a simples exposi\u00e7\u00e3o ao ar fresco poderia ser curativa. Os edif\u00edcios hospitalares eram em si mesmos uma forma de terapia. Numa edi\u00e7\u00e3o de 1940 da revista de arquitetura&nbsp;<em>Pencil Points<\/em>, Talbot F. Hamlin apontava confiantemente que \"a qualidade do ambiente ao redor de uma pessoa doente pode ser t\u00e3o importante para cura quanto as pr\u00f3prias medidas terap\u00eauticas espec\u00edficas\".<br \/><br \/>Mas os ambientes circundantes eram importantes parcialmente, por conta de quem ia aos hospitais. De fato, at\u00e9 o final do s\u00e9culo 19, o tratamento m\u00e9dico n\u00e3o era a raz\u00e3o para ir a um hospital - a pobreza era. A grande maioria dos pacientes dos hospitais do s\u00e9culo 19 eram casos de caridade - pessoas doentes que n\u00e3o podiam pagar por um m\u00e9dico em casa, que n\u00e3o tinham familiares para cuidar deles e que n\u00e3o tinham outro lugar para ir. Um paciente ocupava a mesma cama na enfermaria que abrigava algo entre seis a trinta pacientes. Enfermeiras proviam comida, trocavam bandagens, limpavam e trocavam os len\u00e7\u00f3is, mas ofereciam muito pouco em termos de tratamento efetivo. O hospital escrupulosamente limpo, brilhante e com ambientes arejados era o ant\u00eddoto para os ambientes habitacionais origin\u00e1rios dos empobrecidos pacientes.<br \/><br \/>No entanto, a popula\u00e7\u00e3o hospitalar mudou nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20. Avan\u00e7os m\u00e9dicos, crescimento urbano e transforma\u00e7\u00f5es na filantropia transformaram os hospitais em um novo tipo de institui\u00e7\u00e3o onde pessoas de todas as classes iam para obter o tratamento de ponta. Anestesia e assepsia tornaram as cirurgias em hospitais n\u00e3o somente mais seguras, mas tamb\u00e9m mais suport\u00e1veis. Novos equipamentos, como m\u00e1quinas de raios-X, oftalmosc\u00f3pios e cardiogramas, melhoraram as op\u00e7\u00f5es de diagn\u00f3stico e de terapias. T\u00e9cnicos de laborat\u00f3rios bacteriol\u00f3gicos podiam identificar pat\u00f3genos com uma precis\u00e3o nunca antes sonhada na era anterior de diagn\u00f3sticos por sintomas. No in\u00edcio do s\u00e9culo 20, o que acontecia nos hospitais estava cada vez mais ligado aos procedimentos m\u00e9dicos e \u00e0 efici\u00eancia de fluxos de trabalho, e n\u00e3o mais ao ambiente ostensivamente salutar em si mesmo.<br \/><br \/>Essas mudan\u00e7as tornaram evidentes as limita\u00e7\u00f5es dos projetos \"terap\u00eauticos\" anteriores. A fim de fornecer uma janela para cada quarto, os edif\u00edcios n\u00e3o poderiam ser mais largos do que a profundidade de dois quartos e isso, inevitavelmente, requeria longas e estreitas alas. Tais estruturas desconexas n\u00e3o s\u00f3 eram caras de construir, mas tamb\u00e9m caras para aquecer, iluminar e prover com \u00e1gua; eram ineficientes e demandavam trabalho intensivo na sua opera\u00e7\u00e3o. A comida chegava fria aos pacientes ap\u00f3s ser transportada de uma cozinha central distante; pacientes que precisavam ser operados eram transladados por v\u00e1rios pr\u00e9dios at\u00e9 chegarem ao conjunto cir\u00fargico.<br \/><br \/>Assim, projetistas de hospitais passaram a organizar profissionais, espa\u00e7os e equipamentos em um desenho mais eficiente. As palavras de ordem passaram de \"luz\" e \"ar\" para \"efici\u00eancia\" e \"flexibilidade\". A \u00eanfase em efici\u00eancia rapidamente tomou de assalto as \u00e1reas de atendimento do hospital, estudos de tempo e movimento determinaram&nbsp;layouts&nbsp;e localiza\u00e7\u00e3o de cozinhas, lavanderias e centrais de esteriliza\u00e7\u00e3o. Espa\u00e7os de diagn\u00f3stico e tratamento foram redesenhados para permitir o movimento eficiente, mas septicamente seguro, de pacientes, enfermeiras, t\u00e9cnicos e suprimentos. Por\u00e9m, num primeiro momento, deixou o design da interna\u00e7\u00e3o inalterado.<br \/><br \/>Projetistas e m\u00e9dicos temiam que \u00e1reas para pacientes desenhadas com foco na efici\u00eancia, n\u00e3o seriam salubres, iriam prolongar tratamentos, impedir a recupera\u00e7\u00e3o ou at\u00e9 causar a morte. Numa edi\u00e7\u00e3o de 1942 da revista&nbsp;Modern Hospital, Lt. Wilber C. McLin considerava \"impens\u00e1vel considerar as possibilidades de aplicar estudos de tempo e movimento aos m\u00e9todos de atendimento direto ao paciente\". Interna\u00e7\u00f5es permaneceram como o templo sacrossanto do ar e da luz.<br \/><br \/>Assim sendo, a partir dos anos 1940, a maior parte dos edif\u00edcios hospitalares eram uma estranha mistura de espa\u00e7os de tratamento m\u00e9dico eficientemente organizados e unidades de interna\u00e7\u00e3o ineficientes. As enfermeiras caminhavam penosamente para cima e para baixo de longos sal\u00f5es que abrigavam 20 ou mais pacientes, ou de longos corredores duplamente carregados que conectavam salas menores (de seis, quatro ou duas camas) e quartos privativos. As \u00e1reas de servi\u00e7o ficavam na extremidade dessa caminhada, pegar at\u00e9 mesmo o mais b\u00e1sico dos suprimentos significava uma longa caminhada. Ped\u00f4metros provaram que a dist\u00e2ncia percorrida por dia seria melhor contada em quil\u00f4metros, algumas enfermeiras andavam em torno de 12 a 16 km por turno. Em 1939, um proeminente m\u00e9dico da Filad\u00e9lfia, Dr. Joseph C. Doane observou laconicamente: \"aparentemente, alguns hospitais s\u00e3o planejados com a teoria errada de que as enfermeiras caminham por long\u00ednquas \u00e1reas de servi\u00e7o para camas distantes sem incorrer em fadiga\".<br \/><br \/>Esse foi o dilema do projeto que confrontou Neegaard, uma estrela iconoclasta na nov\u00edssima profiss\u00e3o de \"consultor hospitalar\" (m\u00e9dicos que aconselhavam comit\u00eas de constru\u00e7\u00e3o e arquitetos na melhor pr\u00e1tica). Ele propunha a racionaliza\u00e7\u00e3o da unidade de enfermagem, mantendo as janelas nos inviol\u00e1veis quartos dos pacientes, mas priorizando efici\u00eancia em vez de acesso direto \u00e0 luz e ao ar fresco nas \u00e1reas de servi\u00e7o adjacentes. Seu planejamento permitia que duas unidades de enfermagem[1] diferentes compartilhassem a mesma central de atendimento sem janelas, reduzindo a redund\u00e2ncia espacial.<br \/><br \/>Neergaard calculou que seu \"projeto de pavilh\u00e3o duplo\" exigia apenas dois ter\u00e7os da \u00e1rea constru\u00edda do que o&nbsp;layout&nbsp;tradicional da unidade de enfermagem. Ele tamb\u00e9m aproximou as salas de atendimento dos quartos dos pacientes, reduzindo drasticamente as viagens di\u00e1rias das enfermeiras. Seu desenho foi a primeira incurs\u00e3o a tratar o hospital como se fosse qualquer outro pr\u00e9dio. A estrutura era uma ferramenta facilitadora do fornecimento de atendimento m\u00e9dico, e n\u00e3o mais uma terapia em si mesma.<br \/><br \/>Neergaard sabia que suas ideias seriam pol\u00eamicas. Em 1937, sua apresenta\u00e7\u00e3o na conven\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Americana de Hospitais (American Hospital Association) impeliu os proeminentes arquitetos de hospitais, Carl A. Erickson e Edward F. Steven, a sa\u00edrem de um comit\u00ea para n\u00e3o parecerem apoiadores das propostas de Neergaard. Um not\u00e1vel arquiteto de hospitais chamou o projeto de pavilh\u00f5es duplos de \"essencialmente uma favela\".<br \/><br \/>Entretanto, as ideias de Neergaard venceram. O aumento de custos e a queda das fontes de receita fizeram com que a redu\u00e7\u00e3o dos or\u00e7amentos de constru\u00e7\u00e3o e opera\u00e7\u00e3o se tornassem um imperativo financeiro. O desenho centralizado reduziu o volume de despesas com a constru\u00e7\u00e3o de paredes exteriores, facilitou a centraliza\u00e7\u00e3o do atendimento e diminuiu o n\u00famero de enfermeiras ao reduzir as dist\u00e2ncias. Nos anos 1950, com o advento dos antibi\u00f3ticos e a melhoria das pr\u00e1ticas ass\u00e9pticas, os m\u00e9dicos tamb\u00e9m acreditavam que a sa\u00fade do paciente poderia ser mantida independente do projeto do quarto. Alguns m\u00e9dicos at\u00e9 preferiam o controle ambiental total oferecido pelo ar-condicionado, pela central de aquecimento e pela luz el\u00e9trica. Janelas n\u00e3o eram mais necess\u00e1rias para um hospital saud\u00e1vel e, nos anos 1960 e 1970, surgiram at\u00e9 mesmo quartos de pacientes sem janela.<br \/><br \/>Os edif\u00edcios eficientes, desumanos e mon\u00f3tonos da segunda metade do s\u00e9culo 20 testemunham at\u00e9 que ponto o projeto hospitalar tornou-se uma ferramenta para facilitar a medicina, em vez de uma terapia.&nbsp;Hoje, uma estadia num quarto de hospital \u00e9 suportada, n\u00e3o apreciada.<br \/><br \/>Todavia, o p\u00eandulo ainda se move. Em 1984, o arquiteto de hospitais Roger Ulrich publicou um artigo que tinha uma descoberta clara e influente: pacientes em quartos com janelas melhoram numa taxa mais r\u00e1pida e em maior porcentagem do que pacientes em quartos sem janelas.<br \/><br \/><strong>Notas:<\/strong><br \/>[1] Unidades de enfermagem s\u00e3o grupos de pacientes supervisionados por uma enfermeira.<br \/>","protected":false},"featured_media":0,"template":"","class_list":["post-8717","materia","type-materia","status-publish","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/materia\/8717","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/materia"}],"about":[{"href":"https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/materia"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/iph.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8717"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}